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Comportamento

O silêncio da impotência é um passo de recuperação

É a última parada do estado de lamentação e a primeira parada do estado de recuperação.

Diante da impotência, é costume nosso, humano, gritar. Um grito pode vir com ações, com palavras ou com movimentos bruscos. Ao estarmos expostos a situações que causam medo, o furor tende a ser a primeira e mais contundente ação. Algumas pessoas paralisam. E até mesmo a paralisia é uma forma de gritar: a imobilidade é uma reação a uma situação de medo.

Mas e o silêncio? O silêncio é o que vem depois do furor inicial, de todas as batidas de cabeça e de todos os gritos que, inconscientemente, expurgaram nossas forças últimas. O silêncio é uma forma de recomeço.

Lembro-me de várias vezes em que esperneei para tentar resolver uma situação e quando me dei conta de estar cansado demais para conseguir, não me restou outra alternativa senão o silêncio. Acredito muito que as histórias se repetem em nossas vidas, o que não se repete (ou talvez nem sempre precisa se repetir) é a forma como lidamos.

Ontem à noite, impactado por uma reflexão bíblica sobre o perdão, temática que venho discorrendo há algum tempo nas minhas reflexões pessoais devido a situações pessoais que envolvem o tema, voltei para casa com uma certa inquietude. Por sorte, a pia estava cheia de vasilhas para lavar. Lavar louça ao som de músicas é uma atividade terapêutica para mim. Mas o fazer, o grito da inquietação, não foi suficiente. Parti para a serra para observar o luar. Tentei escrever, mas na última estrofe do poema, desisti. É como se nada fizesse sentido ou não tivesse mesmo que fazer. Embora silencioso demais, ainda não era silêncio.

O silêncio é o que existe depois que tudo acabou. Depois que os pensamentos esgotaram-se. O silêncio é o último dos estágios da angústia. O silêncio é a sentença transitada em julgado. O silêncio é a afirmação de que a impotência é nítida, escancarada. O silêncio é a aquietação. O silêncio é a cessação da espera. É a morte da expectativa. É o sepultamento da vontade de fazer.

Os mais religiosos que me perdoem, mas não há consciência religiosa que seja capaz de explicar o que o silêncio da impotência, da imobilidade e da impossibilidade faz conosco.

Toda vez que fico calado demais é porque estou pensando muito. E é difícil estar assim ao lado das pessoas porque é raríssimo encontrar gente com quem a gente se sinta confortável para ficar em silêncio, gente que aceite sua presença sem palavra, gente que passa a segurança de não nos julgar pela bagunça de nossos pensamentos, gente que senta ao nosso lado e nos confia a certeza de que estará lá quando tudo passar.

Mas é como se a gente realmente precisasse disso. Diante da impotência, o silêncio é realmente um passo de recuperação. É o último estágio da angústia e o primeiro da recuperação.

Marcus Vinícius de Matos, doutor com quem tive o prazer de trabalhar por alguns meses, escreveu recentemente num comentário sobre a vida acadêmica que “escrever é uma coisa muito solitária”. Concordo, e aplicando esta frase a outro contexto, adiciono que escrever é conseguir tirar de dentro o que está entulhado e mal organizado.

Escrevi textos e poemas incompletos. Escrevi cartas que não enviei. Mas a escrita estava lá. Tudo em mim é palavra, eu já tenho consciência disso. De alguma forma, a escrita tem me salvo de outros vícios com potencial mais danoso. A escrita é profética, também. Muitos dos textos que escrevi ou que escrevo enquanto o silêncio do recomeço não chega são de caráter profético. São dispensações de esperança, de que embora hoje possa não estar exatamente como quero, amanhã pode ser diferente. E aí a gente vai vivendo um dia de cada vez, uma vez mais, e vai suportando, fazendo do caminho a própria conquista.

Matos também escreveu, no mesmo tuíte, que “o avesso da solidão é a solidariedade”. Durante os tempos do silêncio que grita, é muito bom ter quem extraia de nós algumas palavras e nos conforte no mesmo silêncio que impera. Mas que também saiba colaborar. Solidariedade é sobre agir, é sobre ombro a ombro, é sobre dar a mão.

O silêncio é, portanto, a última parada do estado de lamentação e a primeira parada do estado de recuperação. A transição entre os silêncios é sutil, mas perceptível. Quando o silêncio for confortável, a recuperação começou. E mesmo que difícil, registrar os recomeços, os pequenos recomeços, é uma parte importante. E também é importante comemorar.

Ainda não é possível que um texto signifique algo, mas do ponto de vista que melhor que nada já é alguma coisa, a recuperação começou.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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