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Espiritualidade

A fé baseada em evidências – uma abordagem do cristianismo

A fé que sai do plano ideal e se torna evidente através de ações, circunstâncias, contextos e, claro, milagres.

Sem qualquer pretensão de inaugurar qualquer conceito novo, te convido a pensar comigo sobre a fé que sai do plano ideal e se torna evidente através de ações, circunstâncias, contextos e, claro, milagres.

Fé baseada em evidências pode ser assimilada em algum nível com a Teoria do Design Inteligente (TDI), que prega que o Universo fora arquitetado (desenhado) por uma divindade superior e que os avanços científicos são capazes de provocar uma assimilação desta afirmação. Mas embora eu tenha mergulhado muito rasamente na TDI para entender o conceito até então desconhecido, por intermédio de um amigo e ex-professor, não há nenhuma relação direta com a TDI.

Evidência é algo que salta aos olhos, que é visível, palpável, algo real. Por isso uma fé baseada em evidências requer uma experiência real com a espiritualidade. Esse contato com o espiritual para que possa produzir evidências não vem nas relações virtuais, por isso, a presencialidade é fundamental. Adiciona-se o elemento humano, o outro, à esta experiência. Pronto: “onde dois ou mais estiverem, ali estarei”, disse algo mais ou menos assim Jesus, o Cristo, conforme registrado em Mateus 18:20.

O grande entrave em compreender a espiritualidade está na origem: conhecemos a espiritualidade por meio de um sistema religioso. Mesmo que alguém tente fugir disso, não há saída. É a forma como as coisas funcionam. Um belo dia você é convidado ou levado a participar de uma celebração religiosa dentro de um templo ou liturgia religiosa e aí você começa a se relacionar com o divino, a espiritualidade propriamente dita, a partir dos meios e instrumentos oferecidos por aquela religião.

Alguns pais tentam iniciar seus filhos no contato com a espiritualidade desde cedo. Quando esses pais fazem parte de um mesmo sistema religioso, eles também irão traduzir aquilo que aprendem sobre como devem fazer essa iniciação de seus filhos. Direta ou indiretamente, sempre é a religião o meio para que um ser humano possa iniciar seu relacionamento espiritual com a divindade, qualquer que seja.

O que acontece após a iniciação, seja ela voluntária ou involuntária, é o objeto maior desta explanação. Uma experiência de fé passa, obrigatoriamente, pela constituição de crenças. O sistema religioso atua como uma escola de crenças, costumando ter nos seus mais intrínsecos modos de fazer uma didática aplicada, baseada em um ou mais livros sagrados ou ainda numa tradição oral manifestada muitas vezes em símbolos e objetos.

Uma das premissas da maior parte dos sistemas religiosos, em especial aqueles de fundamentação cristã, é que não haja contato com outros sistemas religiosos – isto é, sistemas de crenças. Quando uma pessoa originada num sistema religioso entra em contato com outro sistema religioso, há um choque de conceitos. Gera-se, portanto, o que se chama de “crenças conflitantes”. Cada sistema religioso, precavido em suas origens, costuma ter respostas a essas crenças conflitantes. E novamente, a limitação do contato com o sistema religioso alheio é uma delas.

Acontece, porém, que parte das pessoas já se originam em sistemas religiosos distintos e trocam experiências desde a mais tenra idade com antepassados que foram originados em outros sistemas. Eu, por exemplo, venho de uma família cujo pai e toda a origem paterna é pentecostal, enquanto minha mãe e toda a família materna é católica apostólica. Conviver no meio dos dois sistemas religiosos e, numa terceira opção, seguir um caminho distinto (próximo em crenças, mas distinto em dogmas) foi conflitante.

No entanto, este conflito tende a ser implacável quando o sistema religioso de origem entra em contato com um sistema religioso abominado ou demonizado pelo sistema religioso de origem. O conflito é explícito e chega a ser objeto de repúdio por parte dos pares. Mas é aqui também que nasce a ampliação da visão: compreender que existem tantos sistemas religiosos que sequer sabemos organizá-los em segmentos bem definidos.

Conhecer novos sistemas religiosos e reconhecer o funcionamento deles e a experiência espiritual que eles provocam, mesmo que sem qualquer envolvimento direto, gera um acréscimo de conhecimento e uma maturidade indescritível a quem tem esse tipo de experiência. Não somente pela ideia de conhecer o novo, mas de compreender como uma comunidade específica se convencionou a se relacionar com uma ou mais divindidades.

No plano da fé, é importante lembrar que o conceito bíblico de fé é justamente a crença no que não se vê. Fé baseada em evidências, portanto, não seria fé dada a interpretação mais radical possível do texto bíblico de Hebreus. Entretanto, flexibilizando a carta aos Hebreus no sentido de transmissão de confiança que o apóstolo queria passar, é possível perceber que a fé pode não somente ser baseada em evidências como deve ter para si embaixadores que transmitam mensagens antes decodificadas – disponíveis, mas decodificadas.

Em que evidências, no entanto, a fé se baseia? Antes de mais nada, no testemunho ouvido ou observado de alguém já iniciado naquela fé (Romanos 10:17). É preciso que um ato testemunhal aconteça para que desperte a fé baseada em evidências no indivíduo. É necessário também que haja coerência entre o discurso e a prática (1ª João 2:5-6), pois o indivíduo precisará confiar no emissor da mensagem para que então passe a confiar na própria mensagem. E por fim, a fé baseada em evidências encontra sua solidificação na experiência, agora individual, com o Divino.

A experiência individual está mais relacionada à compreensão máxima que se pode obter da pergunta “quem é Deus” do que à necessidade de uma manifestação em carne da pessoa de Deus. Por isso, a ciência sobre a divindidade e a forma como ela “pensa” é um dos grandes objetivos da religião. Acontece que a espiritualidade que está acima da religião é uma lagoa muito mais profunda que a compreensão sobre o pensamento da divindade, geralmente expresso numa tradição ou documento escrito ou ainda em tradições orais passadas de geração em geração.

A espiritualidade consiste, minimamente, em ter consciência da inexplicável manifestação do divino para além dos limites da consciência humana. A coisa criada é menor que o seu criador, em outras palavras. Apesar de que a Bíblia cristã traz o conceito de que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, não é concebível, pela profundidade e arquitetura de todo o universo já descoberto pela humanidade, que o divino seja mensurável. Encontra-se respaldo, inclusive bíblico para isso, quando os poetas atenienses diziam que “nele vivemos, nos movemos e existimos” (conforme registro em Atos 17:28).

Já que não é possível determinar na consciência humana limitada a existência de Deus como matéria física, já que ninguém nunca viu Deus, a experiência da humanidade com a espiritualidade encontra finalmente uma resposta em Jesus Cristo, o Nazareno. Não à toa a história ocidental está dividida em antes e depois de Cristo. A experiência humana, independente das religiões (sistemas de acesso à espiritualidade) vigentes à época, foi com a espiritualidade representada por Jesus Cristo. É interessante notar que a pessoa humana de Cristo ainda é alvo de muitos questionamentos, em especial sobre o hiato compreendido entre seus 12 e seus 32 anos de idade, não registrado pelas atuais bíblias católica e evangélica. Mas sobram as evidências de que Jesus não somente existiu como foi fundamental para uma nova geração de sistemas religiosos em todo o mundo.

Curiosamente, até a chegada de Jesus Cristo na história humana, não haveria outra forma de perceber a existência de Deus se não fosse através de seus embaixadores, isto é, profetas e outras pessoas que eram atribuídas pela divindade de um poder outorgado para realizar grandes feitos em nome do outorgante. Mas é com Jesus Cristo e com a exaltação da espiritualidade baseada em valores e não nas regras sistemáticas e inflexíveis dos sistemas religiosos que surge uma nova forma de se relacionar com o divino: a percepção de que os valores universais da divindade ultrapassam os sistemas religiosos nos quais os indivíduos estão inseridos.

Uma fé baseada em evidências requer essa experiência com a espiritualidade que tateia com o sistema religioso, sim, mas é bem maior do que ele. As experiências vividas numa situação de crise em que duas ou mais pessoas se juntam para resolver um problema, as experiências de compartilhamento de sonhos, esforços, desejos e planos em comum, a própria experiência do casamento que tem uma significância maior do que a convulação de corpos, tudo isso ajuda a formar uma experiência com a espiritualidade que está além dos sistemas religiosos nos quais os indivíduos estão inseridos.

Por fim, uma fé baseada em evidências requer um mínimo de desconfiança daquilo que é miraculoso demais. Não que milagres não possam acontecer, mas o que constitui o milagre não é somente a ação inesperada do divino e sim a raridade com que isto acontece. Milagre que acontece todo dia deixa de ser milagre. Respirar não é milagre. Respirar depois de minutos sem reanimação após uma parada cardiorrespiratória é milagre. Não se tem parada cardiorrespiratória todo dia, não se tem milagre todo dia. Porque milagre é a epifania, é a manifestação essencial de algo, neste caso, da divindade.

A nós, cristãos, nos resta uma tarefa muito mais difícil do que a dos que conheceram a espiritualidade a partir de outras vertentes religiosas: a obrigação de termos uma fé baseada em evidências, porquanto foi assim que Jesus traduziu seus atos e convidou a seguirem-no. Participando dos sistemas religiosos (o apostolado de Paulo, por exemplo, trouxe a clara convicção de que congregar esforços de fé numa comunidade religiosa é uma das formas de acessar a espiritualidade, sendo a mais edificante de todas), mas reconhecendo que a espiritualidade está para além deles.

Mais ainda, a nós cristãos é declaradamente obrigatório que nossa fé seja uma fé autêntica, sem fingimento e com o máximo de pacificação possível. E não há como sermos autênticos se não reconhecermos nossa humanidade falha. Não há como não sermos fingidos se não houver espaço para que exponhamos as nossas falhas e corrijamos nossos erros. Não há possibilidade alguma de haver paz se o ambiente em que vivermos for um ambiente de competição e não de acolhimento. Não existe fé cristã autêntica sem que haja, minimamente, a compreensão de que quando se fala em graça e salvação, ela é universalmente estendida e o meio de alcance é a fé em Jesus Cristo.

Deus não existe, Ele É. Fique com a ministração de Zé Bruno da Banda Resgate. Engraçada, jovem e atemporal.

Vídeo: Youtube/Reprodução

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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