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A indignação é um álibi, não uma justificativa

A indignação pode nos inflar de vários sentimentos, todos eles legítimos e humanos, mas não é justificativa para alterar os valores.

Na nossa vida humana não há coisa mais gostosa que nos relacionarmos com outras pessoas. Desde a mais tenra idade, quando nossa relação é restrita aos nossos genitores até a vida adulta quando estamos cheios de conexões em que se multiplicam os relacionamentos possíveis. Conversar, comer, compartilhar momentos, risadas, lágrimas e até mesmo rachar a conta podem ser atividades muito prazerosas.

Neste meu pequeno período de redução de jornada de trabalho realizando compensação de horas extras trabalhadas em meses anteriores, tenho dedicado minhas noites a realizar algumas visitas e conversas com algumas pessoas, tanto a convite quanto por provocação minha mesmo. E às vezes a gente se depara com situações muito delicadas porque em todas as conversas já há um nível de intimidade que supera a necessidade de todo aquele teatro que relações novas têm. Conhecendo o histórico de muitos dos meus amigos, colegas e ex-companheiros, quando nos ajuntamos para uma conversa, tendemos a passar horas dialogando. É primoroso, uma boa conversa pode até mesmo curar.

Recentemente, algumas situações foram recorrentes e decidi que escreveria sobre a temática da indignação. É o que se segue.

Uma amiga de longa data, chegamos a fazer faculdade juntos, passa por um momento indignado na vida dela: aparentemente, todos os algozes em sua vida se tornaram bem-sucedidos. “Eu fico indignada”, pontuou. E não é pra menos. Passou por uma situação de assédio num trabalho, no outro, por não se curvar à autoridade não formal de alguém, foi escanteada, e agora vive sobrecarga no seu trabalho. Nos relacionamentos amorosos, foi traída. Em casa, é cobrada por um sucesso inalcançável. Esgotada mentalmente, parou sua segunda graduação. Esforça-se mais do que deve para mudar de cargo por meio de um novo concurso, mas o cansaço lhe leva à sensação de frustração. De repente, sozinha, ela se percebe comparando com todos os seus algozes à sua volta e que estão aparentemente bem-sucedidos. É depressivo demais ver isso acontecendo.

Outra situação acontece com um ex-colega de trabalho. Dedicado a resolver tudo com seus próprios braços, abriu a casa para três pessoas alheias morarem. Tudo estaria acontecendo bem se uma das três pessoas não fosse um desafeto seu que agora faz toda espécie de teatro e ameaça contra ele. Consciente de seus erros no passado e entendendo que precisava tomar atitude no presente, expulsou esse seu desafeto. E agora vive um verdadeiro inferno de ameaças. Se ele não teve um início organizado, dada a desestrutura familiar que o originou, está, agora, fazendo a coisa certa. Com foco em suas realizações, em organizar a vida a partir de si mesmo, e buscando ajudar duas pessoas que neste momento são dependentes dele, ele busca um plot-twist para sua vida.

Mais uma situação de indignação aconteceu há um pouco mais de tempo. Uma amiga que, naquele momento eu nutria sentimentos românticos por ela, foi vítima de um golpe de extravio de documentos pessoais e agora passa por um inferno de situações em que outras vítimas dos golpistas começam a acusá-la de mal feitos não feitos por ela. A estrutura do estelionato é muito bem feita, eu mesmo já caí em golpes de estelionatários, e apesar de ser feito tudo que precisa ser feito em termos administrativos e policiais, é muito difícil fazer parar o movimento dos malfeitores. Lembro que enquanto a ajudava a encerrar contas abertas pelos criminosos, ela pontuou: “a gente tenta fazer tudo certo, o bandido vai e consegue fácil assim, dá vontade de virar bandido”. Revirei os olhos no momento, mais num entendimento de que foi exatamente isso que pensei do que, necessariamente uma repulsa. É de indignar-se mesmo!

E é sobre indignação os três casos. É sobre a ausência de recompensas rápidas para os caminhos corretos. É sobre a perda completa do sentido de fazer o certo, sabendo que tudo é mais difícil quando a gente pega o caminho da retidão, da justiça e da verdade.

Tenho pensado muito sobre uma frase que não deve ser minha, mas que se for, foi originada em abstrações de outros comunicadores e intelectuais: “fazer o que é certo mesmo quando não está dando certo”.

O primeiro ponto a se analisar é o conceito de “certo”. Valores precisam estar acima de regras. Protocolos existem para facilitar procedimentos administrativos, não necessariamente para que as coisas possam acontecer. É por isso que um valor precisa estar acima de uma regra. Quando a existência de um valor é impeditivo para a regra, a regra deverá ser quebrada visando preservar o valor.

Quando os valores estão acima das regras, é possível que tenhamos consciência de que as regras de um determinado espaço de convivência são exclusividade daquele espaço, uma convenção daquelas pessoas que frequentam aquele espaço, por isso se eu tenho valores que diferem daquelas regras ali impostas, eu posso me retirar e procurar um outro espaço que tenha regras compatíveis com meus valores. Isto vale – e vale muito – para todos os espaços de convivência que costumamos ter tradicionalmente (familiares, trabalho, escola, faculdade, clubes de serviço, igrejas, etc.). Se estou num trabalho cujo se produz riqueza de um modo que não seja compatível com meus valores, eu posso sair deste trabalho e procurar outro. Sempre será uma perda imediata, mas um ganho de consciência.

O segundo e talvez mais importante ponto é conceituar o que é “dar certo”. Algo pode estar acontecendo perfeitamente bem e parecer que não está dando certo. Doutro modo, pode acontecer exatamente o contrário: parecer que está tudo certo quando na verdade está tudo errado. Um exemplo bem fácil disso é a receita de bolo. É natural que com os ingredientes corretos se consiga fazer um bolo bacana. Mas o que vai realmente provar se o bolo saiu bom ou não é o produto final, o bolo desenformado após ser assado, é o resultado final, não a massa, a produção inicial. E o que está entre a massa inicial e o resultado final é o calor, o fogo, a queima, a grande prova ‘de fogo’ do bendito bolo.

E quais são as nossas competências em provar no fogo os nossos projetos, resoluções, processos e construções? Será que temos culhão, coragem, ousadia para colocar à vista nossos ingredientes, nosso modo de fazer e principalmente, nossos resultados? Ou será que temos vergonha porque o outro vai acabar enxergando que nós estamos “dando bobeira” ao não estarmos “evoluindo” como quem pega os atalhos?

Como se livrar disso? Ainda não encontrei uma forma de não haver frustração ou indignação. Talvez realmente não haja. Porque se houver será uma negação da realidade: somos humanos e, querendo ou não, nos comparamos uns com os outros, justamente porque somos iguais e encontramos na similaridade a capacidade de agregação, de que somos todos um só.

Existem, no entanto, alguns caminhos. A indignação pode e deve ser um álibi para que possamos não nos igualarmos aos algozes que jogam fora os valores e estabelecem regras de sucesso conceituadas somente no hoje, no agora. Jamais a indignação pode ser a justificativa para agirmos em favor de nosso sucesso, atropelando uma série de valores que alimentamos e nutrimos há tantos anos. Porque quando a indignação vira justificativa para atropelarmos valores, a verdade é que adquirimos novos valores, estes negativos.

Não existe ninguém perfeito, totalmente feliz ou completo no sentido mais pleno da palavra. Não existe. E se existe, é santo. E se é santo, não está entre nós. Mesmo que alguém pareça muito um ser boníssimo e diferenciado, não se engane: ele é exatamente igual a você. Mesmo que alguém pareça de uma brutalidade absurda, não se engane: ele é exatamente igual a você. Todos nós temos capacidades absurdamente boas e ruins. É uma linha tênue, muito tênue.

A indignação pode nos inflar de vários sentimentos, todos eles legítimos e humanos, como: raiva, incompreensão, desespero, comparação, estresse, angústia e desejo de largar tudo. Esses sentimentos podem e devem ser sentidos na sua totalidade, são característicos da pessoa humana. Não senti-los é motivo de total indiferença ou apatia, estados em que deverá haver uma preocupação psiquiátrica com o indivíduo.

A consciência de que a indignação é um estado legítimo e que produz sentimentos legítimos, inclusive os sentimentos ruins, é libertadora. Porque reconhecer que a indignação existe é o primeiro dos passos para continuar fazendo o que é certo. O segundo passo é evitar sempre que possível comparar-se com o resultado (o bolo desenformado do outro) e procurar a comparação com o modo de fazer (a receita). Se a receita estiver igual e o resultado está diferente, há que se analisar a temperatura do forno, a vedação do recipiente e o próprio tabuleiro em que o bolo está, mas se a receita é igual e o resultado é igual, aquiete-se.

É por isso que os indignados precisam, diuturnamente, prosseguirem mesmo que solitários. E quando encontrarem gente que possuam os mesmos valores, se unir a eles. O caminho da indignação é sempre um caminho mais solitário, mas “o avesso da solidão é a solidariedade”, conforme declarou recentemente o Dr. Marcus Vinícius Matos num tuíte na mídia social azulzinha. Solidariedade são braços juntos, ombro a ombro, ouvido com ouvido. Não precisa ser mais que isso. Às vezes os indignados têm todas as forças necessárias para continuarem fazendo o que precisam fazer, só não têm a sensação de que um ser no mundo os entende, por isso eu retomo o primeiro parágrafo deste texto: não há coisa mais gostosa que nos relacionarmos com outras pessoas.

Recentemente um presidenciável e ex-presidente brasileiro por dois mandatos disse que o brasileiro perdeu a capacidade de se indignar com as mazelas sociais. E que é preciso colocar essa indignação para fora para que algo possa mudar. É passível de concordância. A indignação é um álibi para que possamos continuar a fazer o que é certo, sempre que possível, dentro de nossas limitações, com a consciência de que o que realmente vale a pena é deitar com a cabeça no travesseiro e ter o sossego de uma paz no meio dos combates diários, das lutas intermináveis e dos estresses.

A gente erra. Porque somos gente. Mas entre errar fazendo o certo e acertar fazendo o errado… Você já sabe. Só segue. Encontra gente de mesmo valor. Compartilha e continua. Só vai!

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Foto de capa: Pixabay/Reprodução

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