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Comportamento

A osmose de valores – ou porque somos produto do meio

Cerque-se de gente boa, humilde, sonhadora, generosa e alegre, seja na casa de lona ou no palácio de luxo.

“Filho de peixe, peixinho é”, diz um ditado centenário. “Você é a média das cinco pessoas mais próximas de você”, diz outro ditado mais contemporâneo. “Diga-me com quem tu anda e te direi quem tu és”, diz um provérbio popular erroneamente atribuído a textos bíblicos similares. Será que somos realmente tão influenciáveis pelo nosso meio?

Ao invés de responder a pergunta, te convido a pensar comigo primeiro sobre o que é influência. Essa palavra tão frequente no vocabulário da internet tem a ver com aquilo que interfere na fluência natural de algo, neste caso, das pessoas. Influir, portanto, significa causar impacto. Tudo que exerce influência sobre nós tem capacidade de alterar ou pelo menos abalar nossa tomada de decisões.

Somos muito facilmente influenciáveis independente de nossa origem ou classe social em que vivemos. Isto porque somos humanos, temos tendência a repetir comportamentos e a nos limitarmos em nossas comunidades. Por isso uma postura de autoanálise é sempre muito bem-vinda em nossas vidas, levar a autoanálise como valor pode nos deixar a um passo de conseguir identificar nossas fraquezas e fortalezas e, a partir destas, tomar decisões.

No entanto, nem sempre a influência a qual esperamos que se exerça é a que, de fato, acontecerá. Vejamos o caso de um jovem que identifica que está muito aquém de suas capacidades intelectuais e financeiras. Então ele se depara com um grupo de pessoas financeiramente abastadas e aparentemente inteligentes (afinal, se são ricas é porque tiveram inteligência para adquirir tudo). Mais adiante ele se depara com outro grupo, modesto financeiramente, mas repleto de títulos, realizações e experiências acadêmicas, aparentemente pessoas arrogantes (afinal, se ralaram tanto para estudar, hoje têm o direito de se sentirem superior a outrem).

Se o jovem escolher o grupo mais abastado, poderá encontrar pessoas que realmente são inteligentes ou pessoas que usam de tramóias e ilegalidades para atingir seus feitos. Se o jovem escolher o grupo acadêmico, poderá encontrar pessoas de fato arrogantes ou pessoas que são humildes e gentis. Estas discrepâncias são possíveis porque quase nunca encontraremos grupos homogêneos. A heterogeneidade dos grupos sociais advém da tão grande diferenciação dos indivíduos. Há indivíduos que são muito gentis e outros são muito arrogantes. Há indivíduos justamente ricos e indivíduos criminosamente ricos.

Usei o critério de grupos para iniciar este assunto para refutar de vez a ideia de que somos produto de um pensamento institucional. Sermos produto do meio não significa que sejamos produto de uma organização. Mas sim dos valores desta organização quando e se praticados por seus membros.

Aprofundemos com um exemplo mais familiar. Quase todos nós nascemos numa família brasileira. E embora existam disparidades sociais e de estrutura familiar, todas as famílias são constituídas por um membro responsável e seus adjacentes. Assim sendo, a família é uma organização social composta por uma presidência (às vezes individual, às vezes compartilhada) e seus liderados. Não é uma empresa porque não busca lucratividade financeira, embora dependa dela para sua sobrevivência. Não é um governo, um reinado, porque não depende de conquista ou de discurso político para sua manutenção, embora sua manutenção dependa de ações políticas e dialéticas. É uma organização social porque dialoga com outras sociedades, com outros indivíduos e representa uma coletividade: seus membros. A família é, portanto, o primeiro ambiente em que temos contato com valores de formação do indivíduo.

Assim sendo, a família é o núcleo em que involuntariamente os primeiros valores serão formados. Uma família desestruturada em seus valores tende a gerar um pensamento também desestruturado que requerirá muito esforço e tempo para sua correção futura. Na osmose de valores da família, não se escolhe estar ou não estar, é o núcleo de convivência, é impositivo. Por isso, reduzir ao máximo a ingerência de familiares em nossas famílias é um ato não somente de organização e soberania familiar como também é uma precaução aos valores firmados e defendidos por aquela organização social. Um parente com questionável comportamento tende a ser muito mais influente aos seus próprios filhos do que aos filhos dos outros, mas mesmo assim há o exercício da influência na convivência.

A mesquinharia é um valor muito presente em boa parte das famílias, empresas, clubes, escolas e outros ambientes constituídos por humanos. Os sujeitos mesquinhos se aninham muito facilmente porque a mesquinharia depende de pelo menos duas condições: a mentalidade de escassez e a manipulação de resultados a favor do benefício individual e não coletivo. A mesquinharia é dos valores aprendidos por osmose, isto é, por pertencimento e convivência num meio, o mais perigoso. Porque o maior dano da mesquinharia é o ensimesmar, é o reforço ao egocentrismo e à autossuficiência irracional. A mesquinharia faz com que o ser evite sair de suas comunidades e o fecha em um sentimento de “eu contra todos”, criando um panorama de medo que gera a coerção e paralisação do indivíduo.

Se é defendido anteriormente que somos produtos do meio, como os bons valores são conseguidos? Valores são construções, individuais e coletivas, que se provam com o tempo. Portanto, bons valores são aprendidos e construídos de forma decisiva por nossas escolhas de onde e com quem estar. É possível, por exemplo, aprender e construir valores de altíssima estima em uma casa com goteiras na periferia de um bairro enquanto que também seja possível aprender e construir valores reprováveis e altamente negativos em uma casa de alto padrão em um setor nobre da cidade. Não tem a ver com a infraestrutura física nem tampouco com o gênero dos participantes dessa construção: valores são construídos e aprendidos por pessoas. E pessoas são pessoas em qualquer lugar.

A construção dos bons valores, e aqui na concepção de bom, diz-se sobre valores altivos e aceitáveis socialmente, é possível quando “colamos” com pessoas legais, justas, íntegras, pessoas que têm também bons valores. Se nós iremos “colar” com estas pessoas na rua, na academia, no escritório, na sala de aula, na igreja, no clube ou num outro espaço qualquer, isso não interessa, porque já se é ponto pacífico que o ambiente físico não interfere na influência gerada. Apenas gente influencia. O máximo que uma infraestrutura pode fazer é causar choque ou experiências diferentes e memoráveis, mas fora isso, apenas gente tem o poder de construir e aprender valores.

Na minha caminhada de vida, tive a oportunidade de participar de sessões públicas da ordem Filhas de Jó, uma espécie de braço jovem feminino da Maçonaria. Assim como a ordem maçônica possui valores muito claros que são postos em holofote sempre nas sessões, as Filhas de Jó constituem uma adaptação desses valores às conveniências femininas. Quem conhece mais a fundo esse tipo de instituição, que funciona mais como um clube de serviço do que uma fraternidade ecumênica, sabe que as pessoas que integram esses espaços são advindos de diversas bases, estruturas e condições socioeconômicas, mas embora haja toda essa discrepância, naquele ambiente da ordem os valores primordiais são defendidos e praticados, às vezes até a contragosto. A existência de ordens como esta que têm os valores como regra de existência reforça ainda mais a ideia de que os valores não nascem conosco, pelo contrário, são construídos e podem ser aditados ao longo da vida.

Também na minha caminhada de vida, tive a oportunidade de visitar e colaborar poucas vezes com o projeto de recuperação de dependentes químicos da Convenção Batista Brasileira, o Cristolândia. Valores cristãos como o perdão, o reconhecimento de culpa e o contato com o sagrado por meio da literatura bíblica e da oração são repetidos em todos os âmbitos do projeto. Serviço, comunhão e reparação de erros são tendências a serem aprendidas por cada um dos recuperandos que ingressam no projeto. Quando o sujeito não está mais interessado em seguir aqueles valores, ele desiste da recuperação e sai do projeto. Novamente, a existência de projetos como esse que determinam claramente valores num determinado espaço nos mostram que a convivência é capaz de transferir por osmose valores e quando estes soam incompatíveis, a repelência é muito prática.

Valores nem sempre são compatíveis entre si. É aí que entra a repelência. Uma pessoa que privilegia a verdade não se sentirá bem num ambiente em que mentir é um valor aceito. Porque são rumos antagônicos. Do mesmo modo, uma pessoa que tem como valor o respeito às crenças da existência divina não estará confortável num ambiente em que o ateísmo é um valor requerido. Valores são individuais e coletivos. E a agregação de pessoas de mesmo valor em ambientes coletivos promove muito facilmente comunidades fortalecidas, o que não significa que sejam homogêneas.

Doutro modo, voltando à temática financeira e acadêmica, é possível compreender alguns ensinamentos bíblicos a respeito dos valores e de como isso interfere em nossas vivências particulares. “Aquele que anda com homens sábios será sábio, mas um companheiro de tolos será destruído”, diz o provérbio registrado em Provérbios 13:20. Andar, no caso deste provérbio, está para além do ato de estar perto fisicamente. É sobre caminhar junto, acompanhar, estar perto das tomadas de decisões e do cotidiano. Sabedoria se aprende na excelência do outro em lidar com situações, é osmose pura. Por isso, que nem sempre que nós andamos com pessoas abastadas financeiramente isto significa que sejamos também igualmente ricos, mas que temos uma mentalidade de tomada de decisões (e que não tem absolutamente nada a ver com dinheiro isto) parecida, aprendida com aquela pessoa.

Retomo, por fim, mais uma de minhas experiências. Apesar da idade de metade de meio século, eu sou um poço de tentativas e insucessos dos maiores, dentre os quais uma tentativa de casamento. Quando tomei esta decisão, estava amparado em valores que eu construí e aprendi fora do meu ambiente familiar. Se eu queria aprender como ser um esposo, eu precisava andar com esposos, caminhar junto com casais e buscar aprendizado em ambientes de casais. A igreja foi um espaço muito útil, mas não somente. Encontrei casais de referência na faculdade, na vida trabalhista e até mesmo nas famílias próximas à minha de origem. O pouco que aprendi ainda não foi colocado em prática, mas os valores aprendidos aqui permanecem de modo que serão provados com o tempo e com as experiências. Tenho “pais” de fé e de referência, pessoas com quem eu busco passar tempo e observar sempre que possível, e que são também as primeiras pessoas para quem conto sobre minhas paixões. Precisei buscar isto fora de casa porque meus pais deliberadamente são contra o casamento, tanto o são que não se casaram e se fossem mais honestos um com o outro nem juntos estariam. Não é, porém, de minha competência colocar em xeque os valores deles, apenas é de minha responsabilidade escolher os meus.

Nós todos somos uma colcha de retalhos. A gente se constrói enquanto humanidade. E a gente também se destrói enquanto humanidade. Não é possível crer num mundo em que o mal esteja ausente ou que os valores negativos inexistam, mas é possível que nós escolhamos nossas histórias e carreiras com base em valores construídos e adquiridos. Cerque-se de gente boa, humilde, sonhadora, generosa e alegre, seja na casa de lona ou no palácio de luxo. O que a gente leva em nós são apenas as experiências e valores que construímos. Todo o resto é perecível, inclusive nossos corpos.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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