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O tempo é amigo – e só

O tempo não apaga memórias, não cura e nem amadurece ninguém.

Dizem por aí: o tempo cura tudo. Eu discordo. Acho que o tempo, na verdade, é amigo da cura, mas não é a razão da cura. Mas não é sobre cura que quero refletir, é sobre tempo.

Os melhores dias das nossas vidas começam sempre como todos os outros, mas é quando eles terminam que temos como avaliá-los como bons ou ruins. O tempo, portanto, é sempre presente (não há condições de determiná-lo no futuro).

O tempo também é uma medida justa: não poupa a ninguém em lugar algum. As horas correm na mesma velocidade para todos, independente de sua posição geográfica, social e financeira.

A percepção do tempo é uma coisa que varia de indivíduo para indivíduo e de situação em situação. Se estamos ansiosos, o tempo corre devagar. Se estamos em gozo pleno, o tempo corre depressa. Sentimos a velocidade do tempo de forma diferente embora o relógio, peça sem sentimentos quaisquer, continue trabalhando no seu invariável ritmo.

O tempo é amigo porque auxilia no processo de cura. Um minuto que passa é razão para uma cicatriz ficar mais firme, já que a ação das plaquetas é potencializada com o tempo de exposição. O tempo também é amigo quando a espera de uma cirurgia é reduzida com a pressa em se conseguir executá-la.

A expressão “correr contra o tempo”, por exemplo, é determinante não sobre o tempo, mas sobre as prioridades. Quando nos encontramos num estado de urgência, priorizamos apenas o que é essencial. Quem estuda para um concurso e sabe que não terá tempo para todas as matérias, priorizará as de maior importância.

O tempo também é amigo das nossas intercorrências psicológicas e sentimentais. Na infância, uma palavra dita em tom agressivo nos faz abrir a boca em choro desconsolado. Na adolescência, a mesma palavra nos traveste de rebeldia e nossa boca resmunga. Na vida adulta, a mesma palavra agressiva se torna uma ponderação de mão dupla. No fim da vida, a mesma boca que se abria em choro na infância agora sorri e releva.

O tempo não amadurece ninguém, mas a percepção de importância, priorização e também de quanto tempo nos resta é o que faz com que tratemos cada situação de um jeito a cada pedaço de nossas vidas. Os mais velhos não costumam ser mais sábios somente por suas idades, mas também pelas experiências e pela capacidade de priorização do que agora enxergam como essencial: viver em paz o tempo que lhes restam.

O tempo não apaga memórias, mas as enfraquece. O que lembrava vivamente de situações de anos atrás hoje são apenas sombras. O que lembrava como hoje em referência a meses atrás já não tem os mesmos efeitos hoje. O tempo é uma espécie de Alzheimer programado, com ação diferente em cada tipo de memória. Algumas são muito voláteis, outras nos acompanharão pelo resto da vida ou até que a programação do esquecimento seja alcançada.

O tempo é a coisa mais valiosa que temos. Por isso os nossos empregos o compram de nós. E quando nos tornamos inválidos, os empregos perdem sentido. Nas nossas relações mais íntimas, o tempo é não somente a coisa mais valiosa como também é amigo. Uma relação fica melhor com o tempo, é testada com o passar do tempo e tende a ficar mais forte quando a soma de tempo em que os indivíduos daquela relação passam juntos aumenta.

O item mais precioso que cada um de nós pode dar ao outro é o tempo, em especial, o tempo de estar junto. Quem diz que não tem tempo para ti, na verdade, escolheu priorizar outro uso do tempo, seja ele comercializado ou não. Se alguém investe (e sempre é investimento) tempo em você, é essa a pessoa que merece seu retorno na mesma moeda.

E por fim, se o tempo tem toda essa preciosidade, não há como negar que o tempo requer de nós os mesmos ingredientes que o amor: paciência e bondade. Paciência para aceitar a ação indomável do tempo e bondade para produzir através do tempo coisas, sentimentos e produtos bons.

O tempo não apaga memórias, não cura e nem amadurece ninguém, o tempo é amigo – e só.

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Foto de capa: Pixabay/Reprodução

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