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O tesão das imperfeições na afetividade realista

Não ser perfeita(o) é a chave para uma relação possível.

Sim, este é um texto romântico em todos os sentidos da palavra. Estava me faltando coragem pra terminar textos rascunhados e calibragem emocional para jorrar palavras por aqui neste assunto. Adianto e registro que este texto contém conteúdo sensível a menores de idade, sendo desaconselhada sua leitura desacompanhada de um responsável.

Imagine a cena: a mulher se senta à mesa de um restaurante, trajada em tecidos sociais e com maquiagem no rosto, com os pés envolvidos em um salto de um dedo de altura. O homem se senta à mesa, ao lado da mulher, trajado em um terno sport fino e com perfume de exuberante fragrância, com seus pés num sapato brilhante de couro. Ambos pedem seus pratos, conversam todo tipo de assunto – trabalho, família, amigos, times de futebol, filmes, comidas, mesas ao lado – menos o que realmente querem saber, é claro, pois no primeiro encontro o que importa é causar boa impressão e garantir um segundo (diz a cartilha do encontro que “deu certo”, segundo o senso comum).

Pra mim, o encontro acima foi, antes de tudo, uma perda de tempo. E antes de mais nada, foi um encontro chato. E pior ainda, mesmo que tenham saído de lá com um novo encontro marcado ou mesmo direto pra cama, eles continuam sendo estranhos e não avançaram nada, absolutamente nada, um com o outro. E argumento isso num próximo parágrafo, onde a cena se passa num parque, já no quinto encontro, um mês depois do primeiro.

Eis a cena: ele aparece de bermuda, tênis de corrida e camiseta de algodão, com um relógio no pulso, uma carteira e o celular na outra mão. Ela vem com um short colado, tênis de vôlei e um top no estilo cropped, carrega ainda uma bolsinha de acessórios onde está seu celular, um batom, sua carteira, uma garrafinha de água e um chiclete. Os dois se encontram, se beijam e reclamam do calor que os fazem suar antes da caminhada no parque. No trajeto, conversam sobre filhos, o que esperam um do outro e como será o fim de semana com a família. Também trocam ideias de trajes para um jantar e questionam um ao outro sobre suas preferências políticas e gastronômicas. No fim do passeio, resolvem tomar uma ducha juntos e caem para a cama, onde dormem exaustos até o dia amanhecer.

Agora sim, este sim foi um ‘date’ perfeito. Com duas pessoas reais, sem filtros e restrições, com vontades compartilhadas e assuntos reais discutidos. Quando duas pessoas conversam sobre coisas que realmente querem conversar, a intimidade aumenta. Quando conversam apenas os papéis que duas pessoas representam ou quando a conversa tem o mero e exclusivo interesse de causar boa impressão, a intimidade não sofre alteração. E sem intimidade, o tesão é apenas físico, sexual. Estou desconsiderando, portanto, também os sujeitos que estão na escala cinza do triângulo de gênero, como os demissexuais que precisam ter intimidade emocional para sentir atração física por outra pessoa.

A exposição das imperfeições causa tesão. Sim, eu sei que é muito idealista da minha parte achar que alguém vai nos amar exatamente como somos sem qualquer questionamento e por isso, eu justifico que não é sobre isso a imperfeição causar tesão. É sobre o ser humano real se revelar.

Há um clichê dos mais engraçados que até poucas gerações atrás era um tabu: a apresentação dos pretendentes aos pais, seja pelo homem, seja pela mulher. Geralmente isto era um evento. E por ser assim, era dotado de uma série de preparativos que iam desde a roupa até a comida que se ia oferecer. A tradição mais conservadora ordenava que o homem visitasse a casa dos pais da pretendente para obter autorização do pai (principalmente porque na tradição patriarcal é o homem que dá a palavra final na casa) para o namoro e/ou casamento da filha. A questão é que quase a totalidade dos filhos já namoravam, na forma mais prática da palavra, sem a autorização dos pais. A autorização era apenas um trâmite moral, social, uma espécie de rito. E o tabu maior vem quando expressamente, a maior parte dos pais já sabiam da existência do pretendente e às vezes até mesmo do namoro. Ritos e mais ritos pra no fim, ser apenas um teatro, pois assim como no primeiro encontro, todas as maquiagens possíveis visam uma boa impressão e não a realidade.

Tenho sido recorrente em afirmar que não quero mais experiências amorosas por um bom tempo até me recuperar totalmente e dar alguns passos necessários na minha vida profissional e na minha situação geográfica. E mais ainda, que não troco a minha solteirice (às vezes incômoda, mas plena) por relacionamentos rápidos com sexo ruim (embora abundante) e afetividade líquida (embora muito mais fáceis de começar, lidar e romper). Por dois simples motivos: evitar sofrimento é o primeiro e o segundo é porque não tenho mais tesão algum nas perfeições e boas impressões.

O tesão a que me refiro é extensivo: sexual, emocional, afetivo e físico. Não sinto tesão em ninguém perfeita demais, isto é, que mostra-se com esta ideia de perfeição. No fundo, ou essa pessoa realmente é boa demais (então eu não me encaixo no preço dela porque meu orçamento é pequeno e eu só posso oferecer o que sou e na medida que sou) ou essa pessoa está mentindo (pra mim ou pra si, não importa, é mentira). Do contrário, eu sinto tesão nas imperfeições. Tive poucos relacionamentos, e apenas um destes formou um longo namoro, e em todos eles eu precisei antes envolver-me de algum modo com a outra pessoa e perceber ser ela um ser humano como eu, ter ela imperfeições. Não ser perfeita é a chave para uma relação possível.

Embora eu já tenha afirmado pelo menos duas vezes que alguém era perfeita aos meus olhos, isto significa exatamente que as imperfeições encontradas casam com o tipo de imperfeição que eu buscava. Em outras palavras, o imperfeito vira perfeito na medida em que a imperfeição se adequa ao meu critério de seleção. Há imperfeições que me incomodam, outras não. Há imperfeições que são negociáveis, outras não. Por isso tomar este tipo de consciência nos leva a ter menos relacionamentos, mas quando os temos, podemos acolher o outro dentro de nós numa velocidade que nenhum outro modo de se relacionar é capaz. Dou a isso o nome de afetividade realista.

Quando duas pessoas se desfazem de todos os métodos de embelezamento e podem se concentrar em manifestar suas personalidades mais livres possíveis, a tendência maior é que os relacionamentos se provem – ou para um fim ou para uma veloz aproximação. Ver o outro acordar com hálito questionável, ouvir um ronco ou estalo incômodo, perceber as estrias e cicatrizes, sentir os volumes nada sexy de gorduras localizadas, enxergar as rugas e franzimentos de tecidos, mostrar-se com depilação por fazer, entre tantas outras intimidades que mais dia menos dia aparecerão na vida dos casais. Tudo isso, feito ainda na fase mais precoce de um relacionamento, pode ajudar a firmá-lo com muito mais franqueza, honestidade e responsabilidade. É a afetividade realista em seu sentido mais físico.

Há, porém, uma tênue vertente que precisa ser pontuada. A afetividade realista não dá margem para o descuido, ela liberta de obrigações impressionistas. Um sujeito que não se presta a cuidar de seu hálito ou da sua higiene não está sendo realista, está sendo porco, descuidado, nada higiênico. Cabe, inclusive, ao parceiro ou parceira, mencionar o incômodo e os riscos que o descuido traz. Afetividade realista não é sobre colocar bactérias na cama e expor o outro às intempéries biológicas. É sobre as realidades humanas: ninguém acorda maquiada, com hálito de bala refrescante e com sutiã de renda vermelha. Se alguém tá acordando assim, cuidado: não é de verdade.

É óbvio que confiança se estabelece com o tempo. E é claro que intimidade é construída. E que só por meio da intimidade haverá a ausência de vergonha. Mas a gente, enquanto ser humano real, pode ajudar a contribuir para esta intimidade vir logo. Um dos caminhos possíveis é fugir das maquiagens e tratamentos capilares nos primeiros encontros. Outro dos caminhos possíveis é perguntar o que se quer perguntar sem medo do outro achar invasivo demais. Porque quando o homem e a mulher querem construir intimidade, há que se ter muito mais que boas impressões visuais de um sobre o outro. É preciso haver confiança.

A afetividade realista é um produto de quem já viveu a trajetória de um amor adolescente, cheio das improbabilidades e dos medos. É um produto que só as pessoas de segunda mão têm facilidade em construir. A afetividade realista é a forma mais dura de se conhecer alguém, mas é também a mais intencional e, portanto, se houver reciprocidade, a mais rápida de transformar-se num relacionamento amoroso.

Na cama, entre quatro paredes, tudo pode, tudo inclusive pode ser dito. Mas fora das paredes de um quarto, a intimidade de um casal é testada diuturnamente. Aqueles que estão nus um para o outro – física e metaforicamente – jamais estarão nus diante de seus algozes, pelo contrário, estarão revestidos do elo perfeito, o amor que é nutrido na confiança mútua e na intimidade.

Que você tenha tesão nas imperfeições dos seus parceiros e/ou parceiras. Porque é por elas que o amor se manifesta. E é nelas que a gente se encontra como gente. É com elas que a gente é feliz.

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Foto de capa: Pixabay/Reprodução

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