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Comportamento

Irmão, ela só quer prazer e você precisa decidir sobre isso

Cada um com suas escolhas, dilemas, tristezas e alegrias de cada caminho escolhido.

Uma conversa de pé de ouvido com meus irmãos, homens, humanos. Os tempos mudaram muito e a mulher aprendeu a fazer o que os homens faziam há muitos anos: ter relações puramente físicas.

Esse texto é uma reflexão sobre esse contexto líquido em que vivemos e como os dilemas éticos de valores nos condicionam a sentimentos muito danosos, mas também libertadores (sic).

Antes de mais nada, quero advogar em favor da liberdade: ninguém é obrigado a ter um relacionamento ou mesmo a querer ter um relacionamento, seja ele de cunho sexual, afetivo ou amoroso.

E se ninguém é obrigado a relacionar-se, quem procura se relacionar com outra pessoa precisa assinar um combinado muitas vezes implícito. Sou do clube dos que acham que tudo precisa ser dito para que seja adequadamente compreendido.

Pois bem, imagina você, um cara de boa aparência, estável, com um emprego bacana, suportes infraestruturais que lhe mantém um nível de mobilidade e conforto agradáveis. Você é um poço de alegria para as mulheres mais conservadoras, que veem o homem como o provedor inicial.

No entanto, sabendo de seu potencial de sedução, e sabendo jogar o jogo sedutivo com maestria, sabe que terá mulheres disponíveis na “prateleira”. Acontece que de uns anos para cá, a mulher adquiriu um senso comercial também e quis se aproximar dessa forma mais capitalista de relação. E então ela encontrou a prateleira dos homens.

E aí a mulher também começou a pensar: eu tenho uma boa aparência, sou estável, tenho um emprego bacana, possuo suportes infraestruturais que me mantém conforto e mobilidade. Eu posso muito bem me aproveitar, como o homem, do que essa característica me traz.

E aqui começou a morar uma forma de se relacionar muito próxima daquela mais velha e conservadora, onde a pessoa era avaliada pela aparente soma de recursos que ela tinha, só que agora a beleza, em especial a formatada nas academias ou nos institutos de modelação física e plástica, tem um preço. “Eu não faço dieta pra ficar com um cara feio”, dizem algumas. “Eu não malho pesado pra pegar mulher feia”, dizem alguns.

Desde sempre, a nossa ganância enquanto humanos se baseou em três pilares: sexo, poder e dinheiro. Usa-se um para conseguir o outro ou os outros. Sair desses pilares e tentar uma vida diferente desse tripé é como a música de Tiago Iorc, “Liberdade ou Solidão“. E além disso, constitui-se num dos feitos mais extraordinários de qualquer pessoa.

E sexo é bom, é muito bom, tanto do ponto de vista biológico quanto psicológico, é uma das unidades de prazer mais intensas que qualquer ser humano pode experimentar. Todavia, para algumas pessoas o sexo é um fim em si mesmo. Para outras, o sexo tem um significado afetivo. São antagônicos, porém mutáveis, esses sentidos. É possível, por exemplo, que uma pessoa comece sua vida sexual dando ao sexo sentido afetivo e depois possa passar a enxergar o sexo apenas como um fim em si mesmo. E vice-versa.

Pois bem, imagina agora você, irmão, que começou a conhecer uma garota. Você não tem muita coisa a oferecer senão seu caráter, algumas risadas e uma atenção integral. Daí vocês saem a primeira vez e com poucos minutos, rola ali uma conexão forte, as roupas caem e logo estão envolvidos em um sexo alucinante na cama. O tempo passa e vocês se despedem.

No dia seguinte, nenhum dos dois mandam mensagem. No outro dia, você resolve mandar mensagem pra saber como a garota está. Ela administra a conversa com você a conta-gotas. Coloca a culpa no trabalho ou nos afazeres domésticos – esta é uma das principais armas do capitalismo emocional (mostrar-se envolvido demais com coisas não emocionais e ser indisponível para atrair capital de atenção). Vocês marcam de sair outra vez.

Curiosamente, a segunda vez foi ainda melhor que a primeira. Começa a rolar ali um interesse maior. Você começa a pensar que talvez seja interessante abandonar a vida dos contatinhos e focar nesta pessoa e, sei lá, quem sabe, ter um relacionamento amoroso de verdade, porque a gente já descobriu que “namorar é mais gostosinho, né?“. Então você resolve colocar isso na conversa, você pergunta a moça se ela vê vocês como namorados.

A resposta… “Tá tão bom assim, você não está gostando? Deixa rolar pra gente ver que no vai dar”. Confortável pra você, não? Ela continua te dando o que você quer e você dá a ela o que ela quer, sem compromissos, sem amarras, sem relação estabelecida. Acontece que agora tem um sentimento da sua parte e do outro não há, há um polo positivo e um polo negativo, em algum momento isso vai zerar o prazer e aquela relação líquida, expressa, fraquíssima em sentimentos irá acabar e os dois dirão “foi melhor assim”.

E você repete, repete, e repete várias vezes esta mesma história. Os motivos podem ser vários, inclusive o fato de que independente do cara que você seja, você gostar de sexo. E se sexo é bom, procuramos repetir sempre que dá.

Diante desta realidade, resta uma comprovação: a liquidez requer um volume de relacionamentos que supra a carência emocional natural do ser humano. Se a pessoa despeja a sua carência no sexo, ela precisa cada vez mais de mais prazer e de mais experiência para conseguir suprir essa carência. E a mulher que decidiu ser igual muitos homens acaba aprendendo que esse é o modo de viver mais adequado.

Certa vez ouvi de uma amiga que me confidenciava ter se entregado a uma pessoa que claramente só buscava sexo com ela que saber que ela não precisava ter envolvimento afetivo com a outra pessoa antes de se relacionar sexualmente com ela era “libertador”. E de fato é. O comportamento heteronormativo é muito libertador. É como estar no mercado e você ter várias marcas na prateleira e poder escolher dentre todas, inclusive, a que é mais vantajosa para seu bolso. Acontece que essa liberdade traz outra prisão: a necessidade da escolha contínua e a descartabilidade do outro.

Homens que estão em busca de sexo somente não conseguem ter um encontro não sexual com uma mulher potencialmente escolhível. Por um simples motivo: é o comportamento heteronormativo que aprenderam e reproduzem. Para falsear o fato de estarem em busca de sexo, trazem a mulher para perto em várias ocasiões como no trabalho, na academia e na faculdade, mas encontro de verdade é só se tiver sexo.

E o mesmo acontece com mulheres heteronormativas que buscam prazer. Elas não querem envolvimento porque é assustador demais ter alguém por perto, porque é um poço de incerteza ter alguém e confiar neste alguém, e porque é bem mais fácil ter o prazer acionado no teclado de um celular do que no íntimo do coração de alguém.

O capitalismo do amor transformou as relações em conjuntos de benefícios. Eu fico com alguém de acordo com os benefícios que ele me oferece, a partir do momento que estes benefícios deixam de ser oferecidos, eu passo adiante. “É muito difícil encontrar alguém que queira estar com a gente pelo que a gente é”, pontuei com uma amiga recentemente quando estávamos a conversar sobre a liquidez dos relacionamentos atuais.

Entre a liberdade do sexo sem sentimentos contínuos, sem afetividade relacional, sem amor, e a consecução de um relacionamento sério e mais profundo, o homem que está se relacionando com uma mulher que só quer prazer precisará decidir sobre isso. Eu costumo dizer que quando uma mulher só quer sexo ela costuma ser bem mais honesta que o homem que só quer sexo. Mas o homem tende a ser muito mais honesto quando ele não quer o que está sendo oferecido, por isso, é preciso que o homem use isso a seu favor, a bem de sua saúde emocional.

É preciso respeitar o direito de todos. Mas quando esse direito interfere diretamente na nossa vida, precisamos tomar decisões. E se não há igualdade de pensamento, se não há acordo, o melhor que se tem é aceitar que com aquela pessoa, naquele momento, não vai rolar nada mais que a atração física.

Talvez a maior omissão que fazemos aos nossos adolescentes é sobre o sexo. Sexo é bom, é muito bom, e é necessário. Ao não contar sobre o sexo, não contamos também sobre tudo que pode ou não envolver o sexo, aí criamos uma série de homens e mulheres que precisam aprender na tentativa e erro. E às vezes o erro beija e transa bem, o que faz com que a gente permaneça por muito tempo no erro.

Chegará uma hora que o coração vai querer casa e não encontrará. Essa hora chega para todos, às vezes na velhice, às vezes na idade mais ativa, mas essa hora chega. E aí é nessa hora que você vai precisar decidir mesmo com quem quer ficar e qual tipo de vida procura levar. Cada um com suas escolhas, dilemas, tristezas e alegrias de cada caminho escolhido.

Se você irmão, já se viu nessa hora e está relacionando-se com uma ou mais mulheres que só querem sexo, vai precisar tomar uma decisão. E eu torço para que faça isso da forma mais honesta e carinhosa possível porque mesmo que uma pessoa só esteja querendo sexo ela ainda é uma pessoa, uma alma humana, merece respeito e ternura.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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