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Dependências, vícios e gostos nossos de todo dia

Todos nós temos vícios, só escolhemos quais desejamos manter e quais desejamos lutar contra.

Tema sensível, mas necessário é a discussão sobre as dependências que nós, humanos, podemos adquirir ao longo da vida. Dependência é algo que está totalmente fora de nosso controle e por isso tem proporções e consequências sociais. Já os vícios estão na seara da instintividade desenvolvida com o hábito. E já os gostos estão situados na esfera mais controlável. Os três assuntos, porém, requerem uma discussão mais aprofundada.

Tenho defendido que todos nós temos vícios, só escolhemos quais desejamos manter e quais desejamos lutar contra. No entanto, nem todo mundo tem dependência. E todo mundo tem gostos.

Partindo dos gostos, das preferências, há aqueles que são saudáveis e os que não são. Por exemplo, há gente que sente prazer, que realmente gosta, de caminhar ou correr. É um gosto saudável que, praticado, vira hábito. E sendo hábito pode virar vício ou não. Há gente também que goste de frituras, de forma a preferir as frituras que outros alimentos. É um gosto pouco ou nada saudável, considerados todos os estudos sobre efeitos futuros da ingestão de frituras.

No contexto de vícios, todo vício é um hábito. E todo hábito precede de um gosto. Todavia todo vício não oferece em si apenas o gosto, mas a sensação, o objeto mental da ingestão, do uso e da execução do vício. Há quem goste de vodka. E bebendo com frequência isso se torna um hábito. E como a vodka traz, em primeira noção, uma sensação de leveza, de paz e de isolamento das angústias naturais e reais do dia a dia, a sensação é boa. Sensações boas nosso cérebro quer repetir. Se repetimos com frequência, vira hábito. E virando hábito, é questão de tempo e volume para se tornar um vício.

Mas e a dependência? A dependência é precedida de um vício que, racionalmente não foi contido ou mitigado, e agora está fora de controle. Um dependente – qual seja o tipo de dependência – precisa de ajuda externa para conseguir lutar contra a dependência. Por exemplo, uma pessoa que está viciada em café aumenta os níveis de cafeína a cada semana. Numa ocasionalidade, falta café no escritório. Logo é notado que essa pessoa aparenta-se transtornada – se for uma boa atriz ou um bom ator, essa pessoa tenderá a esconder seu desejo tresloucado pelo café. Se dentro da mente dessa pessoa, a ausência do café a desestabiliza e a faz ter sensações ruins, e se ainda para conseguir o café, pequenas ou grandes regras ou resoluções ou ainda valores pessoais, são quebradas, está caracterizada a dependência.

Dependentes precisam de ajuda. E toda ajuda honesta e bem intencionada será sempre bem-vinda. Isso inclui recuperação psicológica, psiquiátrica, psicanalítica, espiritual, entre outros tipos de recuperação possíveis – resguardados aos profissionais diplomados a indicação de fármacos e tratamentos mais assertivos.

A forma mais fácil de identificar se um programa de recuperação é sério é analisando se ele é um fim em si mesmo (isto é, se todas as dimensões da dependência forem exclusivamente tratáveis neste programa) ou se ele encontra nas várias outras formas de recuperação uma complementaridade (isto é, se o programa dá liberdade para que a atuação profissional, especializada e multidisciplinar transcenda as paredes dos próprios programas de recuperação). Um programa sério reconhece que cada ser humano é um indivíduo livre e que tudo que estiver ao seu alcance para que ele se recupere deverá ser utilizado.

Tendo identificado já em minha vida muitos gostos, muitos vícios e algumas dependências, busquei tratar algumas dependências, reavaliar alguns vícios (mantendo alguns e lutando contra outros) e, por vezes, tenho reavaliados meus gostos.

Não existe nada mais libertador do que descobrir que não somos dependentes de algo, mas apenas viciados. E dependências identificadas requerem cura, enfrentamento, coisa que só nós dentre todos os outros animais podemos fazer. Já para os vícios, a maior parte deles são consequências de esquemas mentais. E portanto, há que se tratar a fonte dos vícios e não os vícios em si. Isto, claro, se você quiser. Não há ninguém neste planeta que não tenha pelo menos um vício – e quem disser que não seja viciado em nada talvez esteja mentindo (ou pra si e para outrem, o que faz da mentira um hábito e consequentemente um vício porque a ideia suposta de não ter vícios oferece as sensações de distinção, de superioridade e de autoridade).

E entre os gostos, é não somente possível como necessário que de tempos em tempos reavaliemos nossos gostos e preferências. Hoje, por exemplo, sou uma pessoa que não gosta de açaí, sushi nem de quiabo. Daqui a alguns anos é possível que eu esteja consumindo todos esses alimentos, tendo alterado meu perfil de gostos. Essa mutação é possível. E às vezes, muito saudável.

Por fim, é sempre bom lembrar que quando temos um vício e o suprimimos (mesmo que só temporariamente) é muito comum desenvolvermos um outro vício ou nos afundaria ainda mais vícios já existentes podendo criar uma nova dependência ou reforçar as já existentes. Sendo assim, o “desmame” de um vício começa na alteração essencial da vontade, passa pela redução gradual de hábitos, pela substituição também gradual desse hábito antigo e por fim, na definitiva erradicação do uso, ingestão ou execução do vício.

Que entre os seus gostos esteja Tiago Iorc. Que entre seus vícios, não exista nada que prejudique outras pessoas ao seu redor. Que entre suas dependências, você busque ajuda e cura. Que possamos continuar em busca da humildade para reconhecer nossos vícios, tratar nossas dependências e bancar nossos gostos. Que Deus seja conosco e sua Graça seja superabundante em nós. Amém.

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