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As coisas que eu sei que não sei ainda

Afinal, a vida é uma escola.

Hoje, voltando de um compromisso eclesiástico, numa aura de tristeza, baixa expectativa e infelicidade, me coloquei a pensar nas coisas que não sei ainda. E apesar de ser pouco habitual fazermos isso, descobri que poderia escrever sobre isso para registrar coisas que, importantes ou não, fáceis ou não, eu não sei fazer.

Antes porém de discorrer sobre elas, acho interessante falar sobre a concepção de que eu só descobri que não sei estas coisas porque, de algum modo, eu soube que há gente que saiba fazer. Portanto, ainda que eu fizesse a proeza de listar tudo que não sei fazer, isto também seria limitado porque à medida em que o tempo e novas experiências acontecem, maior é a noção de que precisamos aprender muito ainda.

Descobri há muito tempo que eu falho miseravelmente em penteados ou trançados femininos, dos mais fáceis aos mais difíceis, assim como também sou fraquíssimo em afetos que sejam relacionados ao toque. Não sei fazer um peixe nem também pão de queijo. Descobri não saber fazer reparos em equipamentos eletrônicos de som, em aparatos hidráulicos de uma casa e também não sei consertar o motor de um carro (às vezes não sei nem identificar algumas peças).

Não sei pilotar avião, helicóptero, trator, bitrem, trem, barco, lancha, navio, nave espacial ou drones. Também não sei operar mesas digitais contemporâneas de som nem mesas de iluminação nem controladoras de som. Sou inapto para consertar relógios, erguer paredes e colocar telhados. Entre outras aptidões não conhecidas por mim estão: cultivar hortas que não morram e plantas que não sequem.

Foi tentando que descobri que não sei cantar nem dançar nem mesmo vibrar com fervor. É possível dizer que não sei falar inglês nem espanhol nem francês nem russo. Também não sei programar uma linha de código computacional nem projetar um edifício nem mesmo arquitetar uma sala. Não sei fazer boas edições de vídeo nem masterizações em áudio, assim como também não sei gravar boas passagens em vídeo.

Se o que nunca vi é sinônimo de não saber, não sei o mar, a neve, um vulcão, um geiser, o oceano, uma usina termoelétrica e uma usina nuclear. Não sei um meteoro, os planetas além daqui, não sei a Via Láctea. Não sei Caetano, Dinho, Anitta e Pablo Vittar.

Não sei a sensação de pegar um diploma de ensino superior, nem de estudar pós-graduação. Não sei também a sensação de casar, ser pai, avô, tio e tio-avô. Não sei a sensação de ser sogro. Não sei a sensação de enterrar os pais. Não sei a morte.

Na verdade, após tantas constatações, sei que não sei de muitas coisas e que já sei algumas. E dentre essas algumas, quase todas não são o melhor que poderia ser, não são satisfatórias (é o velho “dá pro gasto”) e ainda requerem muita prática pra melhorar um pouco. O que me resta agora é usar o que já sei para continuar aprendendo a saber mais, só assim será possível expandir e expandir cada dia mais a lista das coisas que não sei simultaneamente com a lista das coisas que sei.

Afinal, a vida é uma escola. E como disse Jout-Jout citando um autor desconhecido: a única matéria da vida é o amor e a gente passa o tempo inteiro aprendendo pra no fim aprender que ainda não sabe tudo.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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