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Comportamento

A cadeira vazia

Sempre tem espaço pra mais um compartilhar com a gente.

Recentemente, numa das minhas terapias, a psicóloga me mostrou algo interessante sobre mim: tenho esquema psicológico de abandono. Estranho, mas como confio na ciência, acatei a ideia. Não antes sem debater e ficar com a cabeça quase que explodindo devido a quantidade de informação a ser processada.

E o que isso tem a ver com o título? Bem, eu pretendo refletir hoje sobre um aspecto que nunca antes consegui descrever em detalhes: a sensação da cadeira vazia.

A minha quantidade de amizades reflete a minha carência afetiva – digo com frequência que não fossem os vínculos afetivos que tenho com meus amigos, talvez eu não fosse quem eu sou hoje. São as amizades que me balizam, me ajudam a ser humano e a ser melhor. Mas também elas cumprem com a falta adormecida em mim desde muitos anos.

E essa falta, curiosamente, era muito maior quando eu estava mais rodeado de pessoas. Hoje eu passo muito mais tempo sozinho, mas quando passo tempo junto, o tempo é de qualidade. São as coisas que o passar dos anos e o amadurecimento vai trazendo: relacionamentos interpessoais intencionais e honestos.

Lembro-me com muita clareza de quantas vezes viajei e aluguei quartos com cama de casal. E também lembro-me que salvo nas raras vezes em que eu já viajava com alguém, nunca essa cama fora ocupada por ninguém além de mim. Lembro-me também quando projetei meu apê-estúdio e lá tinha uma cama de casal sendo eu solteiro. Neste mesmo apê, queria uma mesa de computador que tivesse tamanho suficiente para abrigar duas cadeiras e dois computadores… Mas eu era um só.

É curioso. Não se trata de algo muito realista. Nem mesmo lógico. Eu só penso que eu preciso estar preparado e acabo me enviesando de oportunidades duplas quando sou só um. Parece que eu sempre quero compartilhar. É bom sozinho, mas parece ser melhor junto.

Lembro-me de uma vez que fui passar férias em Goiânia. Até pouco tempo era uma das três melhores viagens que fiz na vida, mas acabou tomando o lugar outra recente. Quando estava saindo de casa, meu pai questionou: “mas você vai sozinho?” – ele parecia não crer. Eu afirmei que sim. E fui. Lá, desfrutei de coisas maravilhosas. Metade do pouquinho que sei sobre Goiânia foi desses quatro dias que eu passei lá. Fiquei por conta de conhecer mesmo cada lugar, andar pelas ruas, descobrir bairros, o funcionamento do transporte coletivo, andei quase que de ponta a ponta a avenida Anhanguera, descobri restaurantes, cafés e parques. Andei de teleférico, fui ao parque de diversões, andei de pedalinho. Fiz compra em supermercado, na feira, no shopping. Fiz tudo que queria fazer. E estava ali, sozinho. Não me faltava nada.

Mas era só voltar para o hotel e deparar com aquela cama de casal e a arquitetura art-déco que eu lembrava que, embora estava muito bom, tinha espaço para mais alguém e aquilo ali podia ser compartilhado. A custo zero. Era a primeira cadeira vazia que eu definitivamente percebera em minha vida.

Mais adiante, outras viagens. Quilômetros dirigindo sozinho. O banco ao lado vazio. Outras vezes, a poltrona do ônibus ou do avião. Vazia. Parece curioso demais, mas é verdade. Dificilmente alguém senta do meu lado. Eu não nego que isso é confortável em se tratando de estranhos.

Esses dias, enquanto estava na igreja participando de um culto, notei que a cadeira ao meu lado estava vazia. Um casal chegou e tomou lugar na frente. Famílias chegaram e tomaram lugar atrás. Mulheres e homens ao lado. Mas a cadeira ao meu lado continuava vazia. E assim ficou. Talvez ela realmente tenha motivos para ficar assim. Tenho sido bem menos espirituoso quanto às minhas convicções sobre o amor, mas permaneço confiando que tudo que tenho e sou é de Deus e eu sou só mordomo.

É muito confortável ser solteiro e sozinho. Uma dinâmica absurda. Uma facilidade imensa de tomar decisões. É mais confortável ainda quando se aprendeu a ser sozinho desde muito pequeno. Mas por outro lado, descontamos a falta de afeto em padrões comportamentais muito ruins. E aí precisamos balizar isso.

Por outro lado, é muito gostoso compartilhar a vida. É gostoso compartilhar decisão. Criar uma interdependência harmoniosa e totalmente alicerçada no querer mútuo. É gostoso estar em momentos que trazem memórias boas acompanhados de pessoas legais. Não é sobre precisar, é sobre ser melhor acompanhado.

Tudo isso me distancia de pessoas que desconhecem ou desaprovam o valor da união entre pessoas. Quanto mais frieza, mais desinteresse. Quanto menos afeto, mais afastamento. Quanto menos palavras, mais esquecimento. Quanto menos vontade de acreditar na parte boa do outro, mais vontade de sumir da vida alheia. A gente precisa estar num ambiente em que as pessoas enxerguem o mesmo que nós ou pelo menos mantenham os mesmos valores. Essa é a minha briga diuturna comigo mesmo.

Eu sou bom só. Mas sou muito melhor bem acompanhado. Seja das boas amizades ou de um amor, eu sempre sou melhor acompanhado. Portanto, da cadeira vazia tenho tirado algumas conclusões.

Se na nossa mesa, tem dois pratos, compartilhar a comida não aumenta o custo. Se um refrigerante dá pra dois, compartilhar ele vai saciar a sede de afeto que temos. Se uma comida pode ser dividida, o compartilhamento da mesa vai suprir tudo quanto a comida não for capaz. Se eu tenho duas roupas, doar uma não me fará falta. Se eu tenho dois ingressos, dar um vai me fazer eternizar aquele momento com outra pessoa. A cadeira vazia serve para dizer que sempre tem espaço pra mais um compartilhar com a gente.

No fundo, eu acho que todo mundo tem uma cadeira vazia. E não é de carência. É de disponibilidade de compartilhar a vida com o outro. Talvez seja pra compartilhar que a gente tenha sido feito.

Certa vez escrevi que “faltava uma companhia ao meu lado”. E ao longo do tempo tenho sido insistente em convidar pessoas para estarem ao meu lado. Pouquíssimas gostam da ideia. Menos ainda embarcam em minhas viagens – físicas e mentais.

Quero muito uma companhia que fique, mas não estou disposto a aceitar qualquer companhia, em especial as adquiridas pelo que fazemos ou pelo dinheiro. Por isso fico sozinho e sou taxado muitas vezes de carente ou, dicotomicamente, de autossuficiente demais. Mas no fundo, eu nem me importo mais, porque as companhias peneiradas pelas minhas megalomaníacas formas de pensar já são o suficiente e haverá, um dia, alguém que queira e possa ficar.

Enquanto isso, ao meu lado quase sempre terá uma cadeira vazia pra quem quiser experimentar um pouco da minha às vezes entediante às vezes amigável companhia. E quando ela for ocupada de vez, que abramos novos espaços à nossa mesa para recepcionar novas pessoas em nossas vidas. Porque no fim, apenas almas que vão se tornando gêmeas se tornam casais na mais pura forma do termo: na alma.

E almas hospitaleiras acolhem, nos mesmos termos de Jesus, aqueles que um dia fomos nós, os publicanos e pecadores.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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