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As sutis diferenças entre fidelidade e lealdade – ou sobre regras e princípios

Lealdade vem à frente da fidelidade, mas precisa estar interposta. Isto é, as duas precisam coexistir para formar a confiança.

Todo mundo gosta de que uma coisa seja exatamente aquilo que ela parece ser. A isso se dá o nome de fidelidade. Dizemos que algo é fiel quando este algo corresponde exatamente às expectativas.

Fidelidade, portanto, é um parâmetro, uma regra. Situa-se no campo dos valores, mas é um parâmetro. Para se aferir a fidelidade há que se ter pelo menos dois elementos: a expectativa e o parâmetro.

Quando compramos uma pizza de dois sabores e pedimos que um dos sabores venha sem cebola e outro com cebola, está estabelecido o parâmetro. Quando a pizza chega e, de fato, um dos sabores veio com cebola e outro sem, conforme pedido, a expectativa está satisfeita. É possível dizer, portanto, que aquela pizzaria foi fiel ao seu cliente.

Mas e a lealdade? Lealdade é algo mais subjetivo e não existe parâmetro fixo porque ela está mais ligada à pessoa do que a um conjunto de atos socialmente aceitos.

Lealdade é, por exemplo, quando o amigo que disse te esperar, te espera com ou sem atrasos, diante da chuva ou do sol, sob circunstâncias emocionais favoráveis ou não, com você indo ou não. Lealdade é de si para o outro, não espera do outro e não busca do outro. Lealdade é, com total certeza, um dos grandes valores que compõem o bipé bondade-paciência sobre qual o amor é formado e sustentado.

Na minha visão, do alto de meus vinte e cinco anos de idade, lealdade vem à frente da fidelidade, mas precisa estar interposta. Isto é, as duas precisam coexistir para formar a confiança. O estabelecimento de vínculos afetivos duradouros, porém, requer prioritariamente a lealdade como valor inegociável. Amizades, amores e companheirismos só duram quando as provas de lealdade acontecem, naturalmente, pelas circunstâncias da vida.

Pessoas mais legalistas tendem a supervalorizar a fidelidade em detrimento da lealdade. “Ninguém tá vendo”, “só faço certo quando estou em tal lugar”, “eu falo assim só quando estou na frente de fulano”, entre outras frases que demonstram a fidelidade estar acima da lealdade.

Ao contrário do que se apregoa, a fidelidade não causa confiança, não ajuda a estabelecê-la. Não à toa, temos relógio de ponto em nossos empregos, senhas compartilhadas em nossos relacionamentos amorosos e distância físico-afetiva de alguns de nossos amigos. Não confiam em nós porque somos fiéis apenas e só. E não há como mudar isso, já que como estabelecido anteriormente, apenas a fidelidade é mensurável e parametrizável.

Lealdade também tem seus riscos. A lealdade da consanguineidade, do materialismo de segurança terrena, da religiosidade e dos afetos duvidosos pode ser perigosa. Via comum em relacionamentos abusivos, a lealdade é ultrajada para a manipulação.

É uma linha tênue. Porque lealdade significa doação, entrega e consequente vulnerabilidade do ser leal. Mas como dito, a lealdade também tem seus riscos quando é usada com os fins de manipulação. Se toda lealdade dispensada ao outro for mencionada e requerida num momento de desgaste ou de erro, ela está passando à manipulação. Arriscado.

Certa vez conheci uma mulher muito valorosa, cheia de princípios e valores que eram muito aprazíveis para mim. Era a segunda vez na vida que me apaixonava por alguém que carregava uma visão de mundo precedida de valores e princípios muito bem estabelecidos. E não obstante, pude provar de sua lealdade numa determinada ocasião. Essa lealdade não estava ligada a mim, mas foi demonstrada a mim numa situação em que ela tentava enfrentar seus medos assim como eu vencia meus tabus. Sentei-me com ela, a ouvi sobre suas limitações comigo e olhando nos olhos, pude perceber nela a lealdade que procedia de seu coração, o seu medo em me magoar e sua confusão entre a ausência de sentido das muitas coisas que aconteceram em sua vida.

Se eu pudesse de algum modo quantificar a lealdade em valores monetários, eu diria que esse é um princípio que vale um cheque de milhares de reais. Não à toa que a lealdade custa caro: ela custa tudo, a entrega total, a confiança, o subestabelecimento da reciprocidade fica dispensável, a lealdade custa a incondicionalidade de se oferecê-la. Lealdade é como um cartão de identificação para nossa alma: quem tem trocas leais tem acesso irrestrito.

Toda a altivez da lealdade também pode de alguma forma ser encontrada na fidelidade. A fidelidade, embora parametrizável, também tem suas subjetividades. Quando trabalhamos num determinado lugar e passamos o dia a cumprir os horários e nossas funções, estamos sendo fiéis àquele contratante. Mas quando usamos do tempo ora dedicado ao trabalho para executarmos outras coisas não relacionadas ao nosso trabalho e ainda assim consideramos estabelecer a ocultação ou a mentira, traímos a fidelidade como valor. Se reconhecemos, a fidelidade está novamente estabelecida.

Diferentemente da confiança, que requer lealdade para se estabelecer de forma duradoura, a fidelidade não precisa de confiança, ela precisa apenas da autoestima e das garantias dadas pelos que transacionam as trocas na relação.

Fidelidade? Quebrável. Como evitar a quebra dessa característica tão importante para nossas relações? Não há receita pronta. Somos humanos e o risco de quebra é iminente. A quebra pode levar à necessidade de reparo ou de substituição. Embora muito importante, muitas vezes não conseguimos realizar transações de confiança com apenas a fidelidade ou em algum momento esta fidelidade é quebrada e isto causa em nós uma série de sentimentos negativos.

É importante, porém, que validemos sempre o nível de importância que cada caso tem. Há quem trate um pedido de pizzaria com a mesma seriedade e parametrização de fidelidade que a de um relacionamento com um consanguíneo. É muita disparidade e loucura. Tudo precisa ter importância de acordo com a grandeza que, de fato, é.

Lealdade? Destrutível. Se fosse um cenário de guerra, a lealdade é aquele prédio do governo ucraniano que, atacado por um ou mais mísseis russos, se mantém de pé. Isto diz muito sobre a construção que a lealdade é. Ela é destrutível, mas precisa ser bastante abalada, alvejada e combalida até que seja somente escombros. Lealdade não se acaba no primeiro nem no segundo nem no terceiro nem no décimo erro.

Lealdade é subjetiva e como subjetiva que é, tem algo de muito interior nela. Mas um dia a lealdade pode ser destruída se não for reparada, cuidada e alimentada, como tudo na vida. Uma vez destruída, a lealdade só pode ser reconstruída se os escombros forem retirados (isto envolve uma determinação da própria pessoa que agiu pela destruição da lealdade que lhe foi oferecida), se novas bases forem formadas (envolve-se nisto a permissão da pessoa atingida pela deslealdade) e da reconstrução restaurada nas qualidades originais e com recursos novos (isto envolve uma determinação conjunta, muito firme, dedicada e passível de fracassos).

Num passado bem longínquo, eu já tive um apelido muito carinhoso, mas que mais adiante se mostrou falso porque eu destruí a lealdade que me foi oferecida. Eu já fui chamado de “consertador de corações” e me foi apropriada uma história em quadrinhos muito emocionante que até os dias de hoje eu guardo em minha memória com carinho e sempre me emociono ao lê-la. Destruir a lealdade de alguém não é tarefa fácil. É difícil. Mas mesmo assim, eu consegui. Foi uma das tantas burrices que já fiz na vida e que de alguma forma tentei consertar sem sucesso. Mas que de alguma forma, como não se volta ao passado pra reescrevê-lo, reconhecer isto pela primeira vez é encontrar respostas para seguir mudando e tentando consertar o caminho daqui pra frente, é fundamental.

Ter ultrajada a fidelidade pra mim não dói quase nada perto do que é ver destruída a lealdade. Por isso, sim, eu valorizo franca e abertamente a lealdade mesmo quando não há fidelidade e que pra mim não existe confiança absoluta sem lealdade construída. E a maior lealdade que pode se perceber é quando alguém não vilipendia seus valores para agradar quem quer que seja, inclusive a mim. A dor do “não” leal é sempre menor que a do “sim” fiel e só fiel.

Que viva a lealdade e a fidelidade como componentes da confiança que é a única coisa que nos salvará neste século XXI em meio a tanta liquidez e relacionamentos expressos.

*** Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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