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O amor é sempre inédito, mas traz consigo bagagens desafiantes

Amar quem já foi alma gêmea de outro alguém é desafiante e requer tempo.

Não há nada mais inédito na vida que o amor entre duas pessoas. E nem nada mais misterioso que esse elo. Dois seres completamente diferentes, com vivências totalmente diferentes, origens diferentes, que decidem se amar num determinado ponto da vida. Isto é o amor, para os fins deste texto.

Cada pessoa traz consigo bagagens. Seja dos namoradinhos e namoradinhas ou do esposo ou esposa. Há quem já tenha passado por vários casamentos. E mesmo assim não deu uma sentença de morte ao amor, decidindo por tentar novamente construir uma vida a dois. Mas muito além das bagagens do outro em nós, carregamos também as nossas próprias bagagens.

Amar alguém que já amou verdadeira e intensamente outras pessoas anteriormente requer uma dose de coragem a mais, uma autoconfiança maior e também em maior intensidade os dois pilares do amor: bondade e paciência. Não há outra forma de tentar se não for com intensidade. Amar quem já amou, quem já se fez alma gêmea de outra pessoa, requer abaixar as expectativas ao nível mais realista possível e fazer do diálogo limpo e honesto a mais importante preciosidade do relacionamento.

Algumas coisas quando ditas doem, causam ciúmes, causam incompreensão e às vezes suscitam até mesmo mais dúvidas. Mas elas são, proporcionalmente, o que salva e possibilita a continuidade do relacionamento. Não há construção afetiva que dure sobre bases superficiais, sobretudo quando estas bases só se formaram porque dos dois lados ou pelo menos de um se situa um coração traumatizado pelos danos de uma relação anterior.

O ineditismo do amor diz respeito a pelo menos duas vertentes: as coisas, de fato, serem novas; e as coisas não novas serem ressignificadas. É natural que quando iniciamos um relacionamento costumamos ir a um ou outro lugar que nunca fomos. Ou fazer coisas que nunca fizemos, de modo algum, antes. Isto é inédito, é novo. Mas com o tempo passamos a visitar lugares e situações que às vezes já o fizemos com nossos ex-cônjuges ou ex-namorados(as).

Neste ponto, a ressignificação entra em jogo. A nova visita com o novo parceiro ou parceira vai dar um novo sentido àquela memória. É como se a memória anterior, viva, fosse arquivada porque acabara de ser sobreposta pela nova. As ressignificações são muito importantes quando se trata de relações muito fortes do passado, elas são como um atestado de que somos fortes o suficientes e podemos viver mesmo sem aquela pessoa, preservando a admiração, mas nos reposicionando como centro da nossa própria atenção. A decisão de ressignificar uma memória também precisa ser entendida como uma prova de amor para o parceiro ou a parceira, ele(a) claramente está dizendo: foi bom no passado e é difícil pra mim arquivar isso e não ter mais poderes sentimentais sobre esta memória, mas eu quero viver o agora e com você, você é minha escolha.

Quando temos um(a) parceiro(a) que entende as ressignificações, é possível falar sobre isso abertamente. Muitas vezes isso pode machucar, então é sempre necessário que confirmações sobre realmente poder falar sobre aquilo possam ser feitas. Outras vezes, o parceiro terá que aprender a ter silêncio para observar apenas a libertação do outro enquanto nenhuma palavra é comunicada com a boca, mas milhões são ditas pelo toque, pelo olhar e pelos gestos.

Por outro lado, muitas vezes são carregadas bagagens muito dolorosas. Essas bagagens são pesadas e o silêncio não é a melhor forma de torná-las suportáveis, mas às vezes o parceiro ou a parceira não tem confiança suficiente ainda no outro para compartilhar isso sem o medo do julgamento e de um estraçalhamento completo de seu coração. A paciência, obra-prima do coração de Deus e nada íntima de nós humanos, precisa entrar em jogo. Aproveitar cada oportunidade para abrir caixinhas de memórias é importante, sobretudo quando elas vêm acompanhadas de lágrimas.

Relacionamentos que são baseados no diálogo e na confiança mútua tendem a ter uma escalada de confiança nos primeiros meses, uma estabilização quando as ações mais apaixonadas se reduzem e outra escalada de confiança quando depois da paixão, já se tem certeza de que o outro nos ama por aquilo que somos integralmente, defeitos e erros. Há pessoas como eu que têm facilidade de comunicação, o que facilita demais o desenvolvimento da minha confiança no outro, pois havendo um ouvido atento a escutar, consigo falar bastante. Ainda assim, mesmo com essa facilidade, há muitas caixinhas de memórias, opiniões e atos que são gradualmente abertas à medida em que a relação de confiança se consolida.

Quando somos adolescentes, tendemos a ter muita vergonha de nossos corpos. Expostos à comparação durante todo o tempo e continuamente presentes em ambientes nada saudáveis emocionalmente, tendemos a nos proteger. Para isso, cabelos chapados e hidratados, pele sempre hidratada, muitas vezes a maquiagem impera e o perfume não é opção, é obrigação.

Quando nos tornamos adultos e após ter vivido relações mais sinceras e próximas com outras pessoas, vamos perdendo essa vergonha. O mau hálito pela manhã não é mais uma estranheza, é um fato que até se brinca com ele. Os cabelos bagunçados e sebosos são a liberdade maioral. A moça já começa a aceitar banhos juntos e já não acha estranho soltar flatulências pesadas. O rapaz já aceita que seus medos são maiores do que os de sua parceira e que o seu suor não é obrigação de ninguém além de si mesmo. Seios e peitorais aparecem à mostra com frequência maior que durante o sexo.

Com o tempo, ereções começam a ser desprotegidas e não mais são desestimuladas. O outro começa a fazer tanta parte da gente, a confiança estabelecida está tão alta, que agora até mesmo os critérios de comparação e a necessidade de desempenho na cama, deixam de ser importantes e aí o extraordinário acontece. O homem broxa. A mulher se cansa. E eles riem ao invés de se frustrarem porque a frustração está muito ligada à cobrança e como não há, ela é desnecessária. E tentam de novo. E acertam. E depois da transa quente de corpos suados, se aquecem mais ainda conversando trivialidades e rindo como crianças numa tarde de piquenique. E na intimidade maior, compartilham de um gozo que salta o corpo e vai até a eternidade. É neste momento que o sublime, não pela qualidade do prazer, mas pela união das almas que se tornaram gêmeas, acontece.

É por isso que amar quem já traz consigo bagagens, entre elas a de ter se tornado alma gêmea de outro alguém, é desafiante e requer tempo. O tempo é amigo. A paciência é necessária. E a bondade é um adorno. Mas assim como todo tipo de amor genuíno, é inédito. É magnífico. É único.

Que a gente encare cada dia mais os desanimados com a graça de quem quer viver o inédito. Que a gente escancare nossas bagagens, abreviando caminho pra quem quer nos amar. Que a gente se respeite. E respeite o tempo. E aos mal amados que blasfemam contra o amor, sobretudo ao amor manifestado aos homens e mulheres de segunda mão, que sejam constrangidos pelo amor.

*** Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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