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Aceitar radicalmente um término é eliminar o poder do outro sobre nós

Aceitar radicalmente é se fazer perceber que a relação que antes existia não existe mais.

Se eu soubesse disso há mais tempo, eu não teria sofrido cerca de três dos últimos cinco anos da minha vida. Meus lutos emocionais sempre foram lentos, muito lentos. Os primeiros, quase um ano, mas eu fui aprendendo a lidar. Faz uma semana e meia que estou vivendo um e proporcionalmente está bem mais rápido que os outros todos.

No dia do ocorrido, após chorar pior que criança quando descobre que vai levar uma surra do pai ou da mãe por ter sido pego em algo errado, voltei para casa e dormi. No dia seguinte, no trabalho, cancelei todas as minhas agendas e quando era procurado, pedia para deixar para outro dia. Se emiti cinco frases ao longo do dia, foi muito. Consegui uma sessão emergencial de terapia.

Sentei-me com minha psicóloga e disse: “aconteceu isso, isso e aquilo. Eu achei que agora ia e não foi. E pior, foi de um jeito romanticamente trágico. E agora?” Com toda paciência, ela me disse: “agora é viver esse luto. Seus lutos demoram a passar?” Foi aí que lancei luz sobre isto.

Aceitar que uma relação terminou é muito difícil. Sobretudo quando ela tem raízes profundas – e mesmo que uma relação seja breve, ela pode ser profunda. Arrancarmos as raízes, as certezas, tudo que nos liga àquela pessoa é muito difícil. Mas o botão de “Delete” do computador pode ajudar a encurtar esse caminho. Apagar memórias virtuais e concentrar-se tão e somente na organização das memórias afetivas é uma chave. Devolver a quem de direito os bens físicos e descartar os que remetem àquela pessoa também pode ser um caminho interessante a seguir.

Entretanto, vai além. Um luto emocional, obviamente, tem suas várias fases e vez ou outra o desespero bate. A saudade aperta. É aí que entra novamente a ideia central deste texto: aceitar radicalmente um término. E como e por que tem que ser radicalmente? Por uma razão simples: agora é você que está em jogo, sua vida, suas emoções e principalmente sua sanidade mental.

Aceitar radicalmente é se fazer perceber que a relação que antes existia não existe mais. Que o contato deve ser nulo ou limitado. Que a distância é amiga. Que você não pode pisar o pé onde a outra pessoa está, não por escolha própria. Que se a outra pessoa quisesse você, ela estaria com você. E que é direito, total e exclusivo dela, de não te querer e portanto, ela não tem obrigação alguma contigo. Assim como você também já não tem mais nenhum compromisso com ela.

Para fazer cumprir com essa radicalidade, vale de tudo, exceto aquilo que é ilícito e não saudável. Vale explanar com os amigos, comer um prato diferente, ir a um lugar diferente, dormir mais, trabalhar mais, ocupar de fato a mente.

Porque para aceitar radicalmente um término é necessário ter forças e quando as forças se esgotam, as fugas, as ocupações do tempo para impedir de pensar ou de procurar a outra pessoa são totalmente necessárias e consideráveis. Ninguém termina uma relação esperando que o outro vá atrás. E se assim o fizer, eis mais uma razão para que esta relação de fato se encerre. Numa relação, na verdade, se evita o término. Chutar e buscar o balde é só dentro de uma relação. Fora dela, é atestado de desinteresse.

Em outra linha, há outros benefícios em aceitar radicalmente um término e o principal é que o poder que a outra pessoa tem sobre você vai acabar. Presta atenção: um luto é sempre sobre morte, fim, cessação. E se é um luto, a morte é do sentimento, da relação, da pessoa dentro de você.

E vencido o luto, vence-se também todo o poder que o outro tinha sobre nós. Porque uma relação sempre envolve confiança e entrega de chaves da nossa vida. Vencer o poder do outro sobre nós é como se agora a pessoa já não pudesse mais ter o poder de manipular, editar, um conteúdo, uma sala de nossas memórias, ela continuará tendo acesso em modo de visualização, mas sem poder.

Da mesma forma que o outro perde o poder sobre nós, nós também perdemos o poder sobre o outro. E talvez isto seja o mais difícil: abrir mão do outro, da presença, da história do outro, de tudo que o outro era e é. Perder o poder sobre o outro significa no mínimo, escancarar que somos impotentes na raiz da palavra, impotentes quanto ao outro, quanto ao que sentíamos. A cessação do poder é o fim da história de uma relação.

Há casais que terminam e nunca mais podem se ver e nem conversar. E os parceiros novos, achando-se inteligentes, enxergam isso como se fosse uma prova de amor. Mal sabem eles que os ex não se falam porque nenhum dos dois viveu totalmente o luto emocional e sabem que têm poder um sobre o outro, assim, deixam na caixinha do “quem sabe um dia” aquela relação que deixou de existir. É diferente, porém, de casais que tendo estado juntos uma vez, anos adiante resolvem reiniciar uma nova relação com seus parceiros antigos. Ter vivido o luto emocional de uma relação não inviabiliza que outra, com as mesmas pessoas num prazo futuro, ocorra.

Viva seus lutos emocionais. Aceite radicalmente cada término. Por você. E para eliminar de si o poder do outro. E para liberar caminho para amores possíveis e reais.

*** Foto de Capa: Biblioteca de Fotos WordPress

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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