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O sem-teto, o personal e a bipolar – uma reflexão sobre nossa humanidade multifacetada

Talvez o grande espanto que estamos tendo enquanto sociedade com esta história toda é porque tudo é verdadeiro e humano demais.

Na história que mescla Givaldo Alves (sem-teto de Planaltina-DF), Eduardo Alves (personal trainer e esposo da envolvida) e Sandra Fernandes (mulher com transtorno afetivo bipolar envolvida no ato sexual com o sem-teto), adiciona-se ainda um quarto elemento, Cleyton Costa (ex-marido de Sandra) para que possamos compreender que essa história é um retrato de nosso cotidiano e que muitas vezes somos todos os personagens num só corpo.

A começar da grande vítima dessa situação toda, Sandra Fernandes, uma mulher de corpo esbelto e no alto de sua idade fértil. Casada pela segunda vez, ambas com profissionais ligados à educação física, ela foi diagnosticada com transtorno afetivo bipolar em fase maníaca psicótica, o que garante que ela tenha sofrido alucinações durante o fato triste que aconteceu. Duas situações são trágicas: a primeira o fato de que uma doença mental, em tratamento, possa ter causado esse imbróglio todo; a segunda que ela foi exposta ao ridículo e dificilmente, na sua comunidade, terá condições de voltar a encarar os olhos de seus pares sem vergonha tendo que recomeçar a vida em outro lugar – uma situação vivida por milhares de mulheres em todo o Brasil que já foram expostas em vídeos pornográficos não-autorizados e outros escândalos.

Lançar olhar sobre Sandra e dar a ela nome é importante. Existem alguns fatos: ela traiu o seu esposo com o sem-teto; a razão da traição foi uma alucinação; a traição, portanto, perde seu efeito de quebra moral e vai para a seara do transtorno psiquiátrico. Neste ponto, o personal trainer Eduardo Alves foi brilhante na sua postura: perguntado pelo Metrópoles sobre o seu casamento, ele foi categórico “meu casamento continua“. Ela casou-se com uma pessoa que a ama, de verdade, o que se provou. Talvez ele, bombadão, esteja mais próximo da noção cristã de amor do que ela que evangelizava na rua.

A segunda vítima dessa situação toda é o sem-teto Givaldo Alves, um homem de meia idade com a objetividade e dialética comum aos sem-teto (quem já fez trabalho com usuários de drogas e sem-teto sabe que se encontra pessoas com mais capacidade de discussão nas ruas do que nas faculdades). Ofertado a si um verdadeiro banquete da carne, ele não pensou duas vezes antes de aceitar: “uma mão na direção e outra no carinho”. Não cabia a ele, naquela circunstância, saber se aquilo era ou não uma alucinação da mulher, ele não tinha conhecimento prévio e a menos que ela tivesse uma aliança no dedo, ele não saberia sequer se ela era comprometida ou não. No final, ele apanhou e foi espancado. Seja qual for a razão, nunca a violência levará razão, então, ponto negativo ao personal trainer.

Nos dias seguintes, já recuperado dos socos e murros, Givaldo Alves falou com exclusividade ao Metrópoles e, além da dialética capaz de entortar muitos deputados e senadores eleitos, ele mostrou também nada arrependido mesmo após ter tomado conhecimento da situação crítica da saúde mental de Sandra Fernandes. Não era de se esperar menos: alguém para o qual foi negado ou não foi sequer oferecido a base da pirâmide de necessidades básicas do ser humano não terá condições socioemocionais de compreender o mundo ao seu redor com a humanidade que ele talvez nunca tenha experimentado. Não ter casa, não ter segurança, não ter abrigo, não ter alimento nem vestimenta. A situação de Givaldo é a de milhões de brasileiros, renegados e vítimas de uma desagregação social cada vez mais aterrorizante. E o pior, no centro do poder político do país.

Se Sandra foi vítima de sua doença e Givaldo vítima da agressão de Eduardo, o personal por sua vez foi vítima de esperar o pior do outro. Ao espancar o morador de rua, ele esperava um estupro ou um roubo, talvez a julgar pelas vestimentas do sujeito dentro do carro com sua esposa. Esperar o pior do outro é uma condicionante de terríveis decisões. A maldita pré-conceituação que tomamos em relação ao outro, ao estereótipo do outro, ainda pode nos matar. Vemos isso com frequência quando a polícia costuma abordar um grupo de jovens negros, mas não aborda jovens brancos, em contextos iguais. É estrutural. E talvez não tenhamos como mudar isso tão cedo.

Por fim, o último e quarto elemento dessa trama toda surgiu desapercebido. Por que um ex-esposo teria palavra importante? Porque sabemos que um casamento é a maior intimidade entre duas pessoas, portanto é de lá que saem as visões mais honestas sobre quem é o outro. Quando as equipes de reportagem foram buscar informações sobre Sandra com Cleyton Costa, ex-exposo, encontraram um biotipo igual ao de Eduardo (o que mostra que uma vez escolhidos alguns biotipos, eles não mudam), e uma pessoa que ratificou a personalidade de Sandra: “ótima mãe, uma pessoa muito boa”, qualificou.

Talvez o grande espanto que estamos tendo enquanto sociedade com esta história toda é porque tudo é verdadeiro e humano demais. A mulher dizendo a verdade, os problemas psiquiátricos de verdade, o sem-teto dizendo a verdade, o personal trainer acreditando na verdade, o ex-esposo falando a verdade. Estamos tão acostumados à mentira, à fazer parecer, à passar a ideia de que “não foi bem assim” ou de “abafar o caso” que quando alguém dá a cara a tapa e escancara tudo, ficamos estabanados.

Sem dúvida, embora os danos à saúde mental de Sandra Fernandes devem ser traumáticos, haverá respingos também a todos os outros envolvidos na história. Porém, como toda história exposta à cristalização da verdade, ela passa e se solidifica no passado. Uma hora a história passa a ficar chata de se ouvir, esgotada, e outros assuntos virão à tona. Mas uma moral fica: numa história em que todos falam a verdade e todos manifestam a sua humanidade, evidenciamos que o surto é coletivo e precisamos falar sobre saúde mental.

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Foto de Capa: Metrópoles/Youtube/Reprodução

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