Categorias
Posicionamentos

Não quero muito, quero o bastante pra não querer outra coisa

Tudo que terei nos próximos meses de recomeço será eu e a certeza de Deus, o Eterno.

Eu sei que é prepotente, arrogante e egocêntrico demais. Sei que tenho falado muito de mim. Sei que o que quero é muito, é demais, é tanto que nem dá pra classificar. Mas hoje eu quero te convidar a conhecer o que quero: o bastante para não querer outra coisa.

Eu sou novo. Mas ao mesmo tempo me sinto velho. Já sinto dores musculares, cervicais e lombares. Já tenho meus problemas de saúde. Já tenho dívidas. Já sou chamado de tio às vezes. Já tenho uma carteira de trabalho com algumas anotações. Já conheci mais de 40 cidades em quatro regiões de cinco estados brasileiros. Já rodei mais de 130 mil quilômetros no Noroeste de Minas Gerais, dos quais pelo menos 50 mil dirigindo. Tenho habilitação para moto, carro, caminhão e ônibus. Participei de vários momentos muito extraordinários, jogos, shows, várias coisas que estão na minha memória. Conversei com milhares de pessoas, conheci a história de dezenas, me apaixonei muitas vezes, amei algumas e fui amado uma. Já sei o que gosto e o que não gosto, embora esteja sempre buscando novas experiências em especial quanto à comida. Essa bagagem toda que me pesa é menor que a de bilhões de pessoas e maior que a de milhões. Tenho reconhecimento de que sou apenas um cidadão brasileiro, nem melhor nem pior que ninguém, apenas um. Eu sou um improvável que deu certo como gente. Um filho amado de Deus.

Tendo consciência de quem sou, tenho me ajuntado com quem eu compartilho de valores e crenças. Graças a Deus, fui feliz até hoje em minhas melhores amizades e em todos os meus amores. Considero, inclusive, que os meus amores foram a minha maior escola. Hoje todo mundo está na caixinha do passado, meu coração está livre de novo. E daqui a pouco estarei novamente pronto para me aventurar novamente. Eu já vejo os sinais da cura total, do encanto totalmente quebrado, do florescer outra vez.

Já sei o que quero, como quero e quando quero. Mas como sei também que de nada sou dono, só sou mordomo, é meu Pai celestial quem decide. Enquanto não tenho o que quero, continuo buscando o que quero, com a graça de uma criança que espera o ano inteiro pelo presente de Natal. Todas as distrações ficam pelo caminho enquanto eu já decidi o que quero. E quero muito. Quero tanto que dizem por aí que eu encontrei a “fonte das riquezas”, mas não, estão enganados: eu encontrei a fonte da vida. E já tem um tempo.

Com o devido reconhecimento de que não tenho culhão nem bagagem nem mesmo prerrogativa para me comparar a qualquer um dos personagens bíblicos, me sirvo da licença que a escrita artística me dá para me comparar ao profeta reclamão, Jeremias, cujas reclamações estão registradas no pequenino livro de Lamentações de Jeremias, dentro da Bíblia Sagrada. Sou do tipo que, ao orar, deixo toda a minha expressão de alegria, indignação e incompreensão com Deus, a quem me vê em secreto e me compreende como ninguém.

E é por isso que eu pretendo, de novo, recomeçar do zero – em termos geográficos, infraestruturais, emocionais, trabalhistas, acadêmicos, etc. Tudo que terei nos próximos meses de recomeço será eu e a certeza de Deus, o Eterno. Totalmente grato por tudo e todos os que passaram, estão e fazem parte da minha vida. Em alguma distância os meus vínculos (minha estimada família, meus melhores amigos e alguns companheiros de caminhada que permanecem). Na prática da metafísica, “tudo que nóis tem é nóis”, conforme cantou Emicida em ‘Principia‘.

Minhas atitudes, meus ínfimos feitos e minhas presenças serão esquecidas em poucas semanas. Mas a mim demorarão mais a esquecer. Porque onde estive, estive total e completamente, com intenção. Porque nos olhos que olhei, olhei profundamente. Porque nos corações e nas almas que toquei, deixei ali marcas. Porque nos atos que fiz, imprimi ali pegadas minhas.

No trabalho, como em todos os outros, esquecerão muito rapidamente que eu uso software livre, que meu mouse fica do lado esquerdo, que minha mesa tem níveis de urgência, emergência e importância no trato dos arquivos, que eu era um funcionário 24/7, que minha folha de ponto é a mais maluca de todos os colegas, que comemoramos todas as pequenas conquistas que tivemos. Mas será difícil esquecer nossas profundas conversas sobre relacionamentos, nossos abraços e sorrisos. Será difícil esquecer o meu gosto musical e as conexões que a partir de mim se formaram, será difícil esquecer que a minha neutralidade serviu a um momento crítico como luva e que cumpri com minhas obrigações no limite das minhas forças físicas e emocionais. Apesar de tudo, isso tudo será esquecido e passará.

Na família, como é de praxe com quem se ausenta, esquecerão muito rapidamente que eu tenho prazer na leitura e na música, que eu gosto de viajar e que gosto de cultivos. Também se esquecerão facilmente que minhas roupas tinham rasgos e eram mal organizadas, que eu tive e tenho poucos pares de sapato e que do pouco eu sempre achei mais que o necessário. Porém será difícil esquecer o meu macarrão doce apimentado, meu azeite de dendê nos pratos, meu arroz, feijão e macarrão sem óleo, meu estrogonofe de carne, as minhas ligeiríssimas arrumações, as vezes em que tomei decisões certas e erradas, a minha rede esticada na garagem, o estacionamento sempre de ré, as luzes calculadas e ligadas. Será difícil, mas não impossível esquecer que todos os produtos que comprei prezaram por uma escolha planejada e acertada simplesmente por ter sido feito com amor e afeto, também será difícil, mas não impossível esquecer que nos momentos críticos eu estive lá, por vezes sendo cuidado, por vezes cuidando. Apesar de tudo, isso tudo será esquecido e passará.

No amor, ah no amor, matéria em que sou aprendiz eterno e nunca parece ser suficiente o que já se sabe, esquecerão muito rapidamente da minha face, dos meus beijos, da minha língua, de minhas mãos e das minhas mensagens sempre muito emocionadas. Se esquecerão facilmente de todos os dias que passamos juntos e também de todas as viagens, saídas e momentos que tivemos. Mas será um pouco mais difícil, não impossível, mas difícil, esquecer dos dias em que eu parecia adivinhar o que o amor precisava como o dia em que dei um buquê de flores, um dia que comprei Neugebauer pro filme, um dia que comprei Buscopan às 7h da manhã de uma segunda, um dia que comprei um computador no Natal, um dia que levei absorvente numa viagem, um dia que fiz um jogo de presente, os meus presentes personalizados e que sempre requeriam muito esforço mental para compreendê-los, a minha devoção e entrega quase que religiosa, as minhas tentativas infindas de conquista, as minhas ligações de horas, as madrugadas conversando, as comidas e bolos que fiz, os tantos quilômetros percorridos à pé, de carro ou avião para comemorar o aniversário de um amor, as caras e bocas, as risadas, a certeza que eu dei em todas as relações, fossem elas breves ou longas, que não importava o que acontecesse, o meu abraço sempre estaria ali pra acolher um coração dolorido e, principalmente, um coração feliz por uma conquista. Tudo isso foi bom e muitas foram as paixões e os alguns poucos amores a quem tive a oportunidade de desfrutar de partículas muito fortes do amor genuíno. Mas como tudo na vida, isso passa e isso tudo passou. E como tudo que passa, será esquecido também.

Na política, minha aspiração cidadã, não é difícil esquecer. Aliás, é fácil. A memória político-eleitoral é sempre muito rasa. Então será fácil esquecer das nossas manifestações em apoio à greve dos professores de 2011 e 2012, a co-organização do Fórum de Promoção da Paz Social em 2013, as discussões pelo novo formato de acesso às vagas no IFTM em 2016 e a participação na Comissão de Seleção e Análise dos Beneficiários da LAB em 2020. Mais fácil ainda será esquecer a posse de Dilma em 2011 e a de 2015, as lágrimas de emoção triste quando perdemos a eleição de 2018 e as lágrimas, gritos e passeata quando o amor venceu o ódio em 2014. Será fácil esquecer o emocionante discurso de Branquinho em 2004 quando Antério estava preso e mais ainda a eleição dificílima que perdemos em 2012 para Delvito. Mas será novamente fácil esquecer que em 2016, votei em Delvito porque queria um governo participativo e progressista como o dele. E em 2020, voltei a votar em Branquinho porque a cidade precisava de um gestor experiente e de qualidade que conseguisse conduzir a pandemia e o pós-pandemia com a coragem que ele teve. Terá sido fácil também esquecer todas as análises de plano de governo dos principais candidatos a nível executivo municipal e federal. Mas não será muito fácil, embora seja perfeitamente possível, esquecer cada voto virado em 2014 no ônibus e na faculdade, cada lágrima derramada junto com meus poucos colegas politizados na intenção de eleger Dilma, a primeira mulher presidente do Brasil, cada centímetro de caminhada do lado vermelho nas manifestações contra o impeachment, cada dia de greve geral, esquecer cada conversa longa sobre os caminhos políticos que nossa geração serviu. Terá sido difícil, mas não impossível, esquecer cada almoço renegado para servir à vacinação em massa dos nossos concidadãos, transformando o nosso posto de vacinação no que mais vacinou na cidade em todo o tempo que existiu. Terá sido difícil, mas não impossível, esquecer que eu nunca mudei de lado, ao passo que também nunca perdi uma oportunidade de uma conversa diplomática com quem pensa diferente. Isso tudo passou. É passado. Isso tudo será esquecido.

É por isso que o que busco é mais, o bastante para que eu não queira mais nada. Quero mais, muito mais, em relação à família, ao trabalho, aos meus envolvimentos sociais, ao amor, a minha carreira, a tudo. Eu estou contente com tudo que tenho e sou, mas é que eu quero mais. Porque eu acho que o tempo que temos aqui é tão rápido e não faz sentido algum querer menos. Eu quero mais, muito mais. E engana-se quem acha que eu fale em dinheiro. Dinheiro pra mim é meio, não é fim. O acúmulo não me afaga, pelo contrário, eu sou praticante de um minimalismo simples e fácil de entender: eu não quero ter muito, eu quero ter o necessário e só. Eu tenho horror ao dinheiro que pensa e toma decisões.

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”, escreveu Clarisse Lispector. Não há liberdade (e prisão, na visão existencialista) maior que a tomada integral das decisões. A lida diária, o trabalho do qual se come o próprio pão, a graça e a desgraça de decidir e gozar dos benefícios e malefícios dessas decisões. Sou colcha de retalhos e carrego em mim um pouco de cada pessoa, de cada ambiente, de cada experiência vivida. Sou uma mistura identitária. Sou um cidadão brasileiro, no sentido mais completo da palavra. E consciente de minha cidadania pátria e de minha esperança Comtista, desejo fazer das palavras originais da nossa bandeira o meu espectro de vida: “o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim” (Auguste Comte).

E detrás de todos os papéis, de toda a bagagem, de todas as informações, tem um ser humano. Que quer muito e quer tanto a ponto de que queira o suficiente para não querer mais nada. Ao completar 24 anos, muita coisa tinha mudado. Aos 25, é hora de mudar mais e abraçar a incerteza. Aos 26, quem sabe, a história já seja outra. É tempo de fazer acontecer, pois assim como Paulo, “em nada tenho a minha vida por preciosa” (Atos 20:24a).

Que se registre: permitindo e oportunizando Deus, eu vou conhecer o mar, conhecer as cinco regiões do Brasil, me diplomar em Jornalismo, me tornar mestre e um dia doutor, ensinarei adolescentes e jovens, casarei e amarei minha esposa para além do que eu posso acreditar ser possível, tornar-me-ei pai e terei o prazer de ensinar meus filhos a andar de bicicleta e a aprender a aprender, comprarei um hatch francês vermelho, branco ou preto (nesta ordem), na minha casa terá redes de descanso, escreverei livros, plantarei árvores e flores, conversarei com pessoas importantíssimas – famosas e não famosas -, terei a grata satisfação de servir ao meu país trabalhando na Presidência da República deste país, conhecerei países de língua espanhola e portuguesa, se preso terei sido conduzido pela Polícia Federal, pela Abin, pelo Exército ou pela Interpol e ao morrer, com sorte meus órgãos serão aproveitados, serei por fim cremado, no meu velório os sorrisos pelos momentos que ainda estarão na memória viva dos vivos serão maiores que as lágrimas dos que lamentam a minha morte, e por fim no meu epitáfio poderá ter algo similar a isso: “acertou pouco, errou muito, viveu demais e morreu regenerado por Cristo”. E quando tudo isso acontecer, terei passado à memória de alguns e com a morte desses, morrerei de vez. Com sorte, terei vivido por 300 anos, um sexto disso em mim mesmo, e o resto nos outros e nas obras que deixarei. Por isso, eu quero tanto a ponto de não querer mais nada. Com a graça de Deus, vivo o Eterno, abundante, no hoje. E com Ele viverei o resto. Amém.

%d blogueiros gostam disto: