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Comportamento

A arte do diálogo requer de nós dedicação integral

Voltemos à arte do diálogo, de sentar à mesa, de comer juntos, de provocar o outro à reflexão e discussão, de conversar, de olhar nos olhos, de sentar na rede de dois, de tocar o outro sem intenções sexuais ou românticas, de abraçar, de ser gente com o outro.

A cena é bem comum: você chega num restaurante, bar ou cafeteria e muitas pessoas estão ali conversando em suas mesas. Você observa por um minuto uma determinada mesa e estão ali duas pessoas que, no prazo desse minuto, entre uma frase e outra, usam seu celular. Você não precisa saber o que essas pessoas estão conversando, mas há um fato irretocável: eles não estão integralmente dedicados àquela conversa. E às vezes as conversas requerem dedicação integral, mas na maior parte das vezes não.

Acontece que quando a gente diz a alguém que quer conversar com essa pessoa, a gente espera minimamente uma conversa: um interlocutor fala, o outro responde. Porém para além da conversa, os olhos são capazes de realizar interpretações acessórias e isso é muito relevante para quem tem sensibilidade suficiente para interpretar os olhos de alguém. Não é sobre misticismo, é sobre aquilo que é basilar: os olhos dizem o não-dito, os olhos gritam e jamais disfarçam. Por isso, a palavra dita por meio do olhar e ratificada pela boca entra no ouvido e toma um caminho muito curto para o coração. A palavra bate fundo e promove, de cara, uma interpretação muito mais arrazoada.

Talvez seja por isso que os psicólogos, psiquiatras e psicanalistas nos observam com voracidade como se nos devorassem com os olhos. Por muitas vezes ficamos até constrangidos. Mas é a arte de dialogar, de escutar e de entender. Além: é a arte de promover o outro e de construir a quem ouve. Sou uma pessoa privilegiadíssima: há quase quatro anos faço terapia e tenho à disposição uma psicóloga que me escuta e me ajuda a enfrentar, por meio da Terapia Cognitivo Comportamental com abordagem de esquemas, os meus traumas, dificuldades e situações problemáticas do dia a dia.

E meu privilégio não para por aí: com alguma frequência eu tenho a oportunidade de ter conversas muito relevantes com pessoas que além de me escutar também pronunciam palavras com aquela profundidade que toca a alma. Nos últimos dias, tive algumas oportunidades muito aleatórias e inesperadas. A primeira foi numa sexta-feira que uma pessoa me propôs uma conversa e diante de algumas perguntas, ela pediu para eu tirar meus óculos e olhando no fundo dos meus olhos, com a voracidade de um terapeuta, me fez afirmações acerca de meu caráter e de uma determinada situação em que eu havia tomado decisão. A segunda foi no dia seguinte, quando por autoconvite, visitei uma pessoa que se mudou há pouco tempo para uma nova casa e enquanto desfrutávamos de um papo leve e buscando conhecer-nos, ela me afirmara com a profundidade de um tiro algo sobre minha vida e minha forma de lidar com as situações de meu lar.

Percebi nestas duas situações o quanto podemos ser impactados quando a palavra, que é tudo em mim e para mim, é precedida de uma escuta integral e ativa, constituída de palavras firmes e olhos profundamente vidrados, o resultado é uma desfaçatez completa de todos os escudos e barreiras que ora possam estar postadas para nos protegermos de nossos efusivos sentimentos e sentimentalismos.

Mas o que o olhar representa? Atenção integral. E integral significa ausência de distrações, por isso quem coloca o celular no modo avião diante de uma conversa improrrogável tem muito respeito por aquela conversa. Mais da metade de nossas distrações têm a ver com as notificações, em especial, as virtuais oriundas de nossos smartphones. Mas para além disso, é preciso calar e silenciar as distrações externas: por isso não é fácil ter uma conversa num ambiente movimentado e nada silencioso, ao invés disso talvez seja possível ter uma conversa decente num ambiente público e aberto, mas com considerável silêncio local. É por este motivo que amo praças, para além dos significados sociopolíticos que elas têm.

Tenho visto com muita frequência as pessoas falarem que estão com muitas conversas no WhatsApp sem ler, que não conseguem zerar os stories do Instagram e que não conseguem colocar em dia suas leituras e suas séries. Daí eu me lembro de quando eu queria abraçar o mundo inteiro e queria seguir todo mundo, conectar com todo mundo, ter o contato de todo mundo, enfim, buscar na infinidade da internet o conhecimento máximo possível. E isso me deixa triste porque eu já fui assim, mas ainda bem que há cerca de dois anos eu já me desvencilhei disso: sigo poucos perfis, estou reduzindo as mídias sociais (não o tempo nelas, elas mesmo), reduzindo consideravelmente os contatos, separando contatos profissionais de contatos pessoais, qualificando as amizades, escolhendo passar tempo de qualidade com pessoas reais e próximas, recebendo e indo até a casa de pessoas, reduzindo a quantidade de livros lidos e aprofundando a dimensão da leitura e sua relação com outras obras e contextos, além de eleger curadores de conteúdo e informação (o que é diferente de alienação total e irrestrita a um veículo de comunicação A ou B), reduzir o tempo à frente da televisão, aumentar o tempo sozinho e conseguir escolher de acordo com valores mais assertivos e menos utilitaristas.

Tudo isso puxa-me para o minimalismo. E também me dá condições de ter uma atenção integral em muitas conversas. Meu dia tem 24 horas como o de qualquer pessoa, mas entre afazeres programados e afazeres que emergem, devo dedicar pelo menos umas três horas do meu dia a mídias sociais. Não me envergonho de dizer que às vezes passo metade do meu dia nas mídias sociais. “Tempo perdido”, alguns diriam. Eu não acho. As mídias sociais são, também, o plano virtual de toda a vida. Quem diz separar o real do virtual em século XXI é, no mínimo, deslocado da realidade. Nós não somos nativos digitais, mas a geração que nos sucede é. E convivemos com eles diariamente, sendo o mercado orientado à esta nova geração e, portanto, as novas tecnologias nos abrasam e dificultam que nos mantenhamos atualizados.

Por exemplo, eu não tenho a mínima habilidade para produzir para o Tik Tok, a mídia do momento. Isso não me faz antiquado, mas me deixa um passo atrás da geração que está diariamente na mídia. Este é um dos motivos pelos quais não trabalho mais com gestão de mídias sociais: o ofício requer atualização semanal de conhecimentos e eu não consigo acompanhar. Sou técnico em marketing por formação, mas não atuo com gestão ou análise de mídias sociais, embora preste consultoria em comunicação e faça recomendações, não executo as recomendações no cliente, devendo ele providenciar um outro profissional para executar as recomendações.

Retornando à atenção integral depois dessa viagem sobre mídias sociais – necessária à contextualização do quanto estamos prejudicados pelo volume improcessável de informações que consumimos – é possível que pensemos: ora, mas se eu não seguir tantos perfis, eu não ficarei informado, se eu não ler vários sites ficarei alienado, se eu não tiver vários contatos ficarei sem emprego e prejudicarei meus negócios, se eu não conversar com determinadas pessoas ou evitar determinados locais posso ser esquecido e não estar disponível ao mercado e às relações. É exatamente esse senso de urgência que nós, marqueteiros, queremos criar em você para que compre mais, para que esteja ainda mais tempo nas mídias, para que se torne um dependente da mecânica do algoritmo que precisa de gente se movimentando, curtindo, compartilhando, seguindo e salvando para gerar dinheiro – um mísero dinheiro para quem produz e uma fortuna para quem idealizou as mídias. Então, sai dessa.

Você pode ter poucos contatos, seguir poucos perfis, ler poucos sites e sair e se relacionar com poucas pessoas, contanto que escolha aquilo que eu chamo de protocolos “curadores” – termo utilizado para designar pessoas que fazem uma seleção de um conteúdo. Um exemplo simples: quando alguém chega em você e diz que viu algo na TV falando sobre uma determinada decisão judicial que foi divulgada em vários sites sobre a suspensão do Telegram no Brasil, você pode digitar no Google e pegar a primeira, segunda, terceira, quarta reportagem e ler, ou pode ir direto no Poder360 e encontrar ali a reportagem com a íntegra da decisão judicial. E depois de ler a reportagem, surtindo alguma dúvida, entrar na decisão judicial, ler e tirar o restante das dúvidas que ainda existam. É um dos únicos veículos do país que tem essa política de publicar a íntegra de documentos, comunicados, decisões judiciais, etc. Mas se ainda fica alguma dúvida, você pode acessar o Jota, que é um veículo especializado em assuntos do Judiciário e então poderá encontrar análises, colunas, dados mais concretos e informações mais extensas sobre o assunto. Essa curadoria de saber onde encontrar o quê abrevia tempo e faz com que não precisemos seguir todo mundo ou acessar todas as mídias, basta um caminho bem feito e a informação toda estará à mão.

O tempo que sobra é o da atenção integral que podemos dar numa conversa. Podermos ter tempo para desligar os celulares e conversar, olho no olho, de igual pra igual, sem pressa para ir embora. É possível que muitos que leiam aqui não tenham tido ainda este tempo para fazer isso nos últimos cinco, dez anos, porque a estratégia de nosso tempo foi essa: apressar a gente. E agora a gente está tendo que desacelerar, como nossos pais, tios, avós e bisavós pediam, agora estamos caindo na real de que eles não nos pediam calma porque eram atrasados, mas porque sabiam que nossa pressa iria nos levar ao delírio coletivo.

Voltemos. Não ao desprogresso e ao retrocesso. Não à velhice, à infância ou ao passado que não nos acontecerá outra vez. Mas voltemos à arte do diálogo, de sentar à mesa, de comer juntos, de provocar o outro à reflexão e discussão, de conversar, de olhar nos olhos, de sentar na rede de dois, de tocar o outro sem intenções sexuais ou românticas, de abraçar (ah, como faltam abraços e por isso a gente adoece, em especial as mulheres), de ser gente com o outro.

A arte do diálogo requer paciência e um olhar profundo. Que sejamos tocados pelas palavras e atingidos pelas intencionalidades boas do coração de gente que nos ama ou que nos quer bem. Que Deus nos transforme por meio de nossos relacionamentos interpessoais. Amém.

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Foto de Capa: Nappy/Reprodução

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