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Os gigantes sabem seu lugar, seu tempo e seu espaço

Que possamos voltar a ter gigantes comandando um país do tamanho do nosso, porque nosso povo é gigante e um governo precisa refletir o seu povo.

Os gigantes – aquelas pessoas grandiosas, que são profundas, que têm bagagem, que têm experiência, que têm titulação, que são humanos reconhecidamente humanos, que encontraram a razão que os move, que sabem respeitar o outro, que se conhecem o suficiente para saberem quem são, que são de fato e de direito gigantes em sua existência – sabem também reconhecer o seu lugar, o seu tempo e seu espaço. É sobre isso que te convido a refletir hoje.

Sempre tive muito interesse na política. E desde os primeiros anos da infância, busquei entender o que levava uma pessoa a ser querida e votada pelos outros. Mas também pude perceber que às vezes algumas pessoas, mesmo não sendo os eleitos, eram repetidas vezes mencionadas e respeitadas por todos. Na ocasião da morte de alguns gigantes da política, nada como a comoção incomparável com a morte de Senna, a comoção era curiosa de se perceber. Pessoas de oposição que sabiam se portar diplomaticamente. Também era possível observar em comícios e pronunciamentos que antes da mensagem principal que o orador passava, ele cumprimentava alguns nomes até então desconhecidos que, no entanto, pareciam ser pessoas gigantes.

Darcy Ribeiro, Cristovam Buarque e José Sarney são alguns dos nomes de Brasília que conseguiam conversar com todos, serem respeitados por todos e adquirir de todos – ainda em vida – a admiração, o respeito e a gratidão pelo trabalho que realizavam. Ulysses Guimarães, a pessoa a quem consideramos “o nome” das Diretas Já e da Constituição Federativa de 1988, é um expoente político sempre lembrado também em discursos e documentários.

Os gigantes sabem seu tempo, seu espaço e seu lugar. Os gigantes costumam não ser radicais, costumam agregar o máximo e desagregar apenas o intolerável, os gigantes são gigantes como o projeto de Nação que temos e que está estampado em nossa bandeira: ordem e progresso. Os gigantes têm seus méritos não pelos números, mas pelo impacto, por aquilo que é subjetivo demais até pra explicar.

É preciso reconhecer, por exemplo, que uma liderança política como Michel Temer, ainda que totalmente fora de qualquer cargo, tem um impacto, respeito e força política muito grande. Temer conhece como ninguém o Congresso Brasileiro – conhece o processo, as pessoas e o rito – e não à toa foi o vice-presidente que serviu ao golpe de 2016 contra a presidente eleita Dilma Rousseff.

Há que se reconhecer, também, que Lula, o ex-presidente que levou o Brasil a se tornar uma das maiores potências econômicas mundiais e que trabalhou pela redução da fome como ninguém antes, tem em seus méritos mais do que os números: tem o apoio, reconhecimento e admiração política de seus pares e de gente que, embora nunca tenha tocado em Lula, foi tocado pelos seus programas e se sentiu enxergado como gente pela primeira vez. E como nenhuma outra pessoa fez, Lula tem muita facilidade em reconhecer, nos seus pares, a importância. Não à toa que os primeiros minutos de qualquer discurso de Lula está reservado a agradecimentos e reconhecimentos, geralmente em lista. Dirigentes de movimentos sindicais, representantes de movimentos populares, presidentes de partidos, etc. Sempre são essas as pessoas lembradas – muitas vezes nenhuma delas têm cargos eletivos e são, até segunda imersão, desconhecidas do ideário comum.

Está aí outra característica dos gigantes: toda pessoa gigante tem por padrão o reconhecimento do outro como um ser humano igual, com potencialidades e fraquezas, com méritos e deméritos, com seu passado e com sua capacidade. Os gigantes sabem reconhecer o outro e buscam reconhecer o outro, inclusive publicamente, porque precisam mostrar a quem os acha gigantes que eles são gigantes não somente por serem gigantes solitários, mas porque vieram de uma construção e não vieram sozinhos. Gigante algum se ergue sozinho.

“Descobrir a verdade a partir de descobertas anteriores” ou estar “sobre os ombros de gigantes” é uma frase de uso de Isaac Newton, que disse ter visto mais longe por estar sobre os ombros de gigantes. Essa metáfora, aplicada neste contexto, só mostra que os gigantes também são ombro firme para que anões como nós que estamos aprendendo possamos ver mais longe. E por serem ombros firmes, precisam ser reconhecidos, logo a admiração ao gigante é por aquilo que dele procede, é pelos seus frutos também.

Os gigantes sabem seu lugar porque sabem quem são e não vão a lugares cujo sua presença não é requerida. Gigantes se poupam porque têm mais o que fazer. Gigantes usam bem o seu tempo porque sabem que uma escolha implica em perda da não-escolha. Gigantes também sabem o seu tempo e o seu espaço. Sabem se posicionar dentro de sua pequena área, assim como também alargam fronteiras quando são inquiridos a isso. Gigante sabe dizer que não sabe quando não sabe.

Quando dois gigantes, embora antagônicos em suas opiniões e visões, sentam-se à mesa, não é sequer necessário um pacto de respeito porque os gigantes sabem se reconhecer e se respeitar um ao outro, naturalmente. Quem se apequena é o fanático, o irresponsável e o intolerante. O gigante sabe se sentar e também sabe se levantar. O gigante sabe sentar, conversar e abraçar sem sequer concordar. Porque gigantes quando se sentam à mesa discutem ideias, negociam acordos e viabilizam projetos. Pequenos quando se sentam à mesa discutem pessoas, negociam relações e viabilizam planos.

Não é difícil perceber o espanto de muita gente ao ver Alckmin se filiar ao Partido Social Brasileiro (PSB) para se tornar vice de Lula (PT) para a formação de uma Frente Ampla pelo Brasil de forma a derrotar o governo Bolsonaro em suas intenções sórdidas para um eventual segundo governo. Alckmin era oposição ao governo petista, ferrenho crítico, implacável nos debates e com segurança, os debates de 2006 entre Lula e Alckmin foram alguns dos melhores documentos históricos que temos sobre quando os debates eram sobre o projeto de Nação que sonhávamos e não a baixaria que se tornou desde que a política brasileira se resumiu em retrocessos constantes. Mas independente disso, dois gigantes estão se unindo em favor do Brasil – e claro, de seus interesses político-partidários que são legítimos como os de quaisquer governantes que pleiteiam a Presidência da República.

Que fique claro: quando dois gigantes se sentam à mesa, não há espaço para a mesquinharia. É por isso que Bolsonaro não se senta com os gigantes deste país: porque ele é pequeno, minúsculo, agressivo (o que mostra sua pequenez) e ufanista de meia tigela. Que possamos voltar a ter gigantes comandando um país do tamanho do nosso, porque nosso povo é gigante e um governo precisa refletir o seu povo.

Em favor de um país reunificado, é preciso reconhecer os gigantes e, com base nas orientações de projeto que temos, votar. Diante do cenário do presidencialismo de coalização do Brasil, sempre teremos polarização nas eleições e a produção de candidatos completamente antagônicos quase nunca existe.

No entanto, repetindo a escalada dos últimos anos, temos em jogo dois projetos e duas escolhas. Em 2010, uma mudança histórica estava em jogo: de um lado, eleger a primeira mulher presidente do Brasil e caminhar rumo ao progresso enquanto Nação, de outro eleger um projeto que há 10 anos havia quebrado o Brasil por ser distante da realidade do seu povo. Em 2014, o projeto de Nação estava em jogo: de um lado o progresso de uma pátria educadora, de outro o retrocesso de um choque de gestão. Em 2018, o progresso de uma Nação forte com respeito à diversidade, de outro um governo conservador, misógino, homofóbico e racista. Em 2022, mais delicado ainda, está em jogo logo no primeiro turno uma escolha tênue: de um lado um projeto de governo progressista e de centro com a intenção de reunificar e trazer estabilidade política às instituições mantendo o projeto de Nação ordeira e progressista que existe na Constituição Federal de 1988, de outro um projeto de aniquilação do progresso e instabilidade institucional, de completa entrega ao retrocesso, ao conservadorismo moral, à relação promíscua entre Estado e Igreja, e principalmente de morte geral ao povo, em especial ao povo pobre, periférico e negro do país.

Existem Ciro, Moro e Dória como possíveis terceiras vias ao eixo Lula-Bolsonaro. Mas assim como em 2018, as pesquisas indicavam que apenas Ciro era capaz de ganhar do Bolsonaro no segundo turno, desta vez precisamos ficar atentos às pesquisas para mobilizarmos os votos para os candidatos com reais chances de extirpar, ainda no primeiro turno, as chances do governo Bolsonaro se reeleger.

Se num primeiro governo e na escalada da direita retrógrada (não a progressista, que de algum modo se perdeu abraçando somente as pautas financeiras e tributárias), já temos em Unaí-MG um parlamentar que insiste continuamente em reproduzir um projeto de lei contra o passaporte vacinal, que representa o retrocesso e que insiste numa relação também promíscua entre Estado e Igreja, imagine num segundo governo, com a direita fortalecida? Sentiremos na pele, e em nossos dias e em nossas cidades, os efeitos do conservadorismo e o retrocesso que quer revisar e reescrever a História e abalar continuamente as instituições, a educação e a ciência.

O nosso voto vale. O nosso voto conta. E a largada foi dada. Resta a nós escolher o projeto político de acordo com o Brasil que queremos: um Brasil em que as pessoas vivam mais, que os direitos humanos sejam respeitados, que o nosso salário mínimo e que o poder compra sejam restabelecidos, que as absurdas isenções de impostos aos itens de luxo sejam abolidas e ao invés disso, a classe C possa voltar a ter poder de adquirir sua casa, seu carro e ter todos os dias na mesa os itens de primeira necessidade, que cada cidadão e cidadã tenha acesso à dignidade, educação, saúde e cultura.

Que escolhamos um Brasil que possamos viver em paz com um mínimo de dignidade e não sobreviver como se fôssemos inferiores ao resto do mundo, logo nós, um dos países mais ricos e diversos do mundo. Que por um Brasil reunificado, estável, pacífico e que respeite o seu povo, escolhamos os gigantes de nosso tempo para nos governar.

*** Foto de Capa: Revista Veja/Radar/Reprodução

4 respostas em “Os gigantes sabem seu lugar, seu tempo e seu espaço”

Precisamos de gigantes, mas desses nomes acima que tipo de grandeza tivemos?

Gigantes escândalos de corrupção
Gigante dívida deixada para o próximo governo
Gigante taxa de homicídios
Gigante vergonha para o país, o gigante nome do Partido cujo Presidente foi preso, O tesoureiro foi preso, assessores foram presos…

Talvez não precisemos desses gigantes, talvez um pequeno mas com a maioria do povo ao seu lado, esse sim é gigante, O povo.

É o povo escolheu, e escolherá novamente.

O povo estará ao lado de quem o representa. Foi pela ausência de representação e pelo descrédito e ausência de gigantes, que o povo foi forçado a escolher um pequeno para governar o país. E esse pequeno já se provou ainda menor. O povo, agora, terá a oportunidade de escolher um gigante. Ser gigante é respeitar o projeto de Nação de um povo e ser mais fiel a ele do que a seus próprios interesses.

Gigante alinhados ao Foro de São Paulo, sério? Não haja como o gado cego Lulo-Bolsonarista, a nossa classe política é pobre e se eles fizerem alguma coisa boa, com certeza foi por engano.

E qual o problema com o Foro de São Paulo, já que de fato a união da América Latina em torno de um objetivo comum é algo benéfico a se perceber da ótica da esquerda progressista (a qual eu me filio em termos ideológicos)? O Foro de São Paulo é comparado a um Mercosul, a uma OTAN, a uma ONU “regional” e de caráter exclusivamente ideológico, ao invés de um caráter diplomático. É um grande “partido”, como outras convenções de direita. É o jeito de fazer democracia, em escala corporativista. Não me parece errado fazer parte de uma convenção ideológica internacional de ordem unificadora de interesses partidários. O que é errado é aniquilar oponentes e apoiar regimes ditatoriais, o que ficou muito claro com as relações de Venezuela, Cuba, Bolívia e Suriname com os demais países enquanto tinham lideranças de esquerda. Cada país, cada povo, obviamente é soberano, mas a luta das nações precisa ser pela democracia irrestrita em todos os países. O pior modelo de governo democrático ainda é melhor que o melhor militar ou ditatorial.

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