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Carência não é falta, é espera

A carência, portanto, nesta visão deixa de ser um tempo negativo e passa a ser um processo a se abraçar e viver.

Quando vamos contratar um empréstimo bancário, carência é o termo que se dá para o tempo entre a data da contratação e o primeiro pagamento do empréstimo ao banco. Mas quando estamos sem alguém ao nosso lado, nos acostumamos a chamar esta falta que sentimos de carência. O texto de hoje é em favor da readequação de nosso entendimento sobre o que é carência afetiva e porque este é um processo importante para todos nós, humanos.

O primeiro conceito a se readequar é o da falta. Tudo que nos falta só nos falta porque em algum momento perdemos algo que tínhamos ou tivemos a noção de que precisamos deste algo. Sobre o que realmente precisamos, cabe leitura e aprofundamento sobre o minimalismo, uma forma de viver que prioriza ter apenas o necessário. Mas se tivemos algo antes e deixamos de ter, a falta é comum. É como se um buraco se abrisse e no caso de relacionamentos, embora pareça que sim, não sentimos falta de um CPF ou de uma pessoa em específico, sentimos falta do que aquela pessoa representava ou dos sentimentos que ela produzia e/ou despertava em nós.

Quando alguém nos falta ao nosso lado, é possível que entendamos isso como rejeição, outro aspecto bastante comum nas idas e vindas dos relacionamentos em nosso tempo. Mas o que dizer quando nos acostumamos com a falta? Depende. Quando essa sensação de ter se acostumado advém da pulverização da falta em outras áreas e da fuga de sentido para estas outras áreas, a falta ainda permanece – agora ela se mostra nos excessos em outras áreas (alguns comem mais, outros transam mais, outros aventuram-se mais, cada um à sua maneira). Quando essa sensação não está pulverizada e pode ser vista de forma honesta, é uma evolução do autocontrole e da autoconfiança. Embora seja bom, esse estado dificultará novas relações dependendo de uma combinação exata de atos para que uma nova relação possa existir.

O segundo conceito a se readequar é o da carência. Carência, portanto, não é falta – já conceituada anteriormente. E o que é a carência? É o espaço de tempo, indeterminado, entre a expectativa criada em torno da supressão de uma falta e a realização, execução, finalização da expectativa. Carência é a distância percorrida para chegar a um lugar. Ao abrir-se para esta concepção, a carência deixa de ser vista de forma negativa e passa a ser um período de adaptação, preparação e, sobretudo, testagem.

Ademais, aprofundemos: quando estamos carentes, isto é, no espaço-tempo entre uma expectativa e sua realização, é comum que nossos sentidos estejam cada vez mais sensíveis e nossas privações (faltas) se agucem. Alguém que transita pela carência terá muita facilidade em se doar a outras pessoas de acordo com o quanto a combinação de fatores que ativa a supressão da falta se encaixa. Por este motivo, quem transita pelo espaço-tempo da carência tem por dever se resguardar e, se assumir que deseja honestidade em suas relações, pode assumir para si o manifesto pelo jogo limpo.

Quem está em carência não necessariamente está parado. Pelo contrário, o movimento é bom e adequado. É possível, com as devidas limitações do tempo da carência, desfrutar de experiências únicas e inesquecíveis sem prejudicar, no entanto, o desfrute da expectativa antes lançada. A carência, portanto, nesta visão deixa de ser um tempo negativo e passa a ser um processo a se abraçar e viver.

Para finalizar, uma música de Tópaz sobre a falta – e não sobre a carência.

Saudade de sentir Saudade (Tópaz) – Vídeo: Reprodução/Youtube

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Foto de capa: Nappy/Reprodução

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