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Comportamento

O coração sabe onde ficar

Quando ele encontrar casa, deixe a impaciência reinar e fazer tudo acontecer num estalar de dedos.

Não há dia melhor na vida do ser humano do que aquele em que ele percebe que tem um lugar pra si. Às vezes é a casa própria, às vezes alugada. Às vezes o lugar é apenas uma cidade, um estado, um clima. Às vezes o lugar é um movimento, um sentimento, uma ação contínua. Mas o fato é que não há dia melhor que aquele em que o coração avisa: é aqui que quero ficar.

Com um amigo pastor, aprendi que a intuição vinda do coração aponta como bússola e que, para tomarmos boas decisões, existe uma fórmula ideal: Pensar, Agir e Sentir (P.A.S). Ele carinhosamente associa essa fórmula à palavra “paz”, que no ideário cristão tradicional e bíblico, é o árbitro das decisões mais íntimas do ser humano.

“Paz não é ausência de conflitos”, Antonio Ramos relembra. Mas é, sobretudo, coragem, serenidade e lucidez para lidar com todos os conflitos. Os conselhos da multidão também são bem-vindos a serem ouvidos, mas nem sempre seguidos. Já a multidão de conselhos, essa sim, conforme os provérbios bíblicos, deve ser entendida como sabedoria.

Por muitas vezes, em um mundo globalizado e cercado de faraós, nos vemos reféns de um sistema, de uma lógica perversa e de uma exaustão iminente. Trabalha-se muito em favor do pouco. E quem muito tem ou explora o trabalho alheio, ou advém de uma família abastada ou ainda opera na ilicitude. As regras não são absolutas, mas quase sempre se confirmam.

Por isso, o afeto se tornou escasso. As gerações dalém Revolução Industrial pouco gozaram do afeto como as gerações pós-rádio e TV, mas estamos novamente perdendo isto. Seja por causa da nova Revolução Industrial, agora puxada pela tecnologia e pela considerada sociedade da informação e do conhecimento, seja porque nos esmagamos em relacionamentos abusivos em parte afetuosos na nossa jornada.

Curiosamente, temos medo de abandonarmos situações desconfortáveis e ruins porque pensamos muito no quão faltoso aquilo pode ser a nós. É a moça que se prende num relacionamento sem qualquer perspectiva porque apegou-se demais ao namorado. É o rapaz que leva em banho-maria a relação porque já tem tudo que buscava sem fazer um compromisso social. É a mulher que se entrega num novo relacionamento a conta-gotas porque ainda ama o outro e não sabe comunicar isso, mas também não suporta ficar sozinha. É o homem que desemboca em seus vícios para não bater a porta e ir embora de vez de seu lar já desfeito.

Narrações não são incomuns por uma razão: é difícil demais bancar o que o coração realmente quer e aponta. Vai além: é difícil identificar, de fato, o que o coração sinaliza porque às vezes estamos tão envolvidos em nossas dores, dilemas, problemas e tarefas que sequer temos tempo para sentir e identificar o que se passa dentro de nossas mentes. É por isso que faz muito sentido desfrutar de experiências imersivas, com o mínimo de estímulos externos possíveis, sendo assim possível focar no que se deseja: escutar-se.

O exercício é longo, muitas vezes é caro e significa, na maioria das vezes, solidão. O coração, porém, grita. E não é muito difícil ouvir sua voz. O difícil é entender o que ele está falando, por isso silenciar os estímulos externos é tão importante. Quebrar a rotina, espairecer, sentar por horas a fio, cuidar-se em embriagar-se do silêncio que promove. Não há como fugir disso porque a mente ruge e a ausência de paz impede que boas decisões sejam tomadas, assim como a ausência do pensamento prévio.

E quando temos a ciência de que além das batidas sentidas, também estamos a escutar e perceber o coração, isto é, nossa intuição e tudo de sensitivo que há em nós, resta perceber que todas as tristezas podem se resumir em aprendizado e serem transformadas em alegria. Que o lar desfeito pode dar lugar a um novo lar, uma nova família, um novo jeito de ser e estar. Que o relacionamento que acabou ficou no passado e não volta mais. Que um término hoje doerá menos que uma vida inteira de insatisfações, traições e desamores. Que um desligamento hoje, disruptivo, pode sinalizar uma porta aberta amanhã. Que onde fazem cara feia ou te suportam não é mais seu lugar e que tem gente que implora pra te ter por perto. Que nem todo mundo tá querendo te foder, pelo contrário, tem uma legião de gente de bom coração esperando você se apresentar pra fazer coro junto. Que tem gente que só está esperando seu abraço pra construir uma amizade com você no mesmo lugar em que tem gente que não te encosta. Que você pode ir a vários lugares e ninguém querer sequer registrar-se contigo, mas em outro ter alguém que guarda com carinho uma foto ou vídeo seu em suas mais importantes lembranças. Que quem te guarda como segredo pode dar lugar a quem te trata como joia a ser exposta.

O coração sempre sabe onde ficar. O vermelhinho gosta de lugares quentinhos – abraços, casas e cidades quentes -, de pessoas vigorosas (que se conectam mais facilmente quando olham nos olhos), de sentimentos bancados pela alma e não pelo bolso (aqueles em que o preço que se paga para tê-los é tão alto que dinheiro nenhum do mundo é capaz de comprar). O coração costuma responder de várias formas a um lugar em que queira ficar. O olho enche, a barriga desfalece, a voz se apequena, o olho brilha e, talvez o mais importante: a gente se sente livre pra ser, ter e dizer tudo que somos, queremos e pensamos.

O meu recado é que o ditado antigo de “se você não quer, tem quem queira” é uma baita verdade. Mas ele não tem a ver com revanchismo ou ignorância, já que muitas vezes é usado nesta seara, ele tem a ver com oportunidade. Oportunidade é, para o coração, sempre um lugar. E esse lugar pode não ser o que o coração quer. Por isso, quando uma oportunidade não te quiser, tem quem queira ela. E quando você quiser uma oportunidade, é porque ela não quis outra pessoa. É assim: um misto de vai, volta, quer, não quer, onde cada pessoa sempre tem suas justificativas e geralmente está acobertada por razões.

Eis um recado: peregrine pelo tempo que for, sorrindo ou chorando, sozinho ou acompanhado, mas quando o coração encontrar casa, deixe a impaciência dele reinar e fazer tudo acontecer num estalar de dedos. Confia, o coração sabe onde ficar.

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