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Embaixador Investimentos: operação do MPMG interrompe atuação criminosa em Unaí-MG

Eventuais clientes que tenham sido lesados deverão procurar a Polícia Civil e registrar boletim de ocorrência reunindo o máximo possível de informações a respeito da possível fraude a qual foi vítima para tentar reaver as perdas.

* Matéria atualizada em 06/05, 19h19, para acréscimo da nota da Embaixador Investimentos

“Hoje é domingo, a Bolsa tá fechada, mas nós viemos aqui declarar que a bolsa de valores é nossa”, narra Antônio Sousa em um vídeo do dia 23 de janeiro de 2022 publicado no Instagram, considerado chefe de um esquema fraudulento desmontado na Operação Mercadores do Templo, deflagrada na manhã desta quinta-feira (05/05) em quatro cidades de Minas Gerais, em Belém-PA e em Brasília-DF. Crimes contra a ordem financeira, economia popular e lavagem de dinheiro estão entre as razões para a operação que cumpriu 28 mandados de busca e apreensão, bloqueio de contas bancárias e recuperação de ativos numa soma de quase dois milhões de reais e oito prisões preventivas, incluindo a do chefe do esquema.

Mais de 100 mil seguidores no Instagram, 1.390 inscritos no Youtube e uma empresa pra chamar de sua: o sucesso de Antônio Sousa nas mídias sociais é motivo de muita curiosidade. Gravações de alto nível, mentoria visual, viagens a locais paradisíacos, passeio de helicóptero, jato e carros de luxo. Bastava um clique para perceber que a presença da religião estava em todas as postagens. Foi com esse apelo que Antônio Sousa, agora identificado como suspeito de chefiar uma organização criminosa que atua como pirâmide financeira, conquistou milhares de reais em investimentos de moradores de várias cidades, em especial, de Unaí-MG, cidade a 175 Km de Brasília onde ele residia e operava sua empresa.

Sucesso nas mídias sociais, Antônio Sousa é considerado pelo MPMG o chefe da organização criminosa que atuava em Unaí-MG (Foto: Print Screen/Instagram)

A reportagem acompanhou, desde o lançamento do Embaixador Bank, sua primeira aposta, os passos do então considerado empreendedor. A apuração envolveu uma busca por registros públicos sobre a empresa, audição de investidores, conhecidos e parentes de investidores, além de fontes que pediram sigilo na publicação de prints e outros dados informados.

O Embaixador

Se você colocar no Google o termo “embaixador”, a primeira referência pop ao termo será o cantor e compositor Gustavo Lima, conhecido por repetir diversas vezes o jargão em suas músicas, se identificando como “embaixador do amor”. No Noroeste de Minas Gerais, outro embaixador porém ganhou as mídias sociais, as rádios e até mesmo a TV local: trata-se de Raimundo Antonio Santos de Sousa, natural de Santa Izabel do Pará-PA e casado com Sthéfany de Sousa Macedo, que apoiava o marido no empreendimento, se apresentava como empreendedora e aparecia ao lado de Antônio Sousa em fotos e vídeos de viagens pelo Brasil.

“Ministro de confissões religiosas”, foi esta a ocupação declarada por Raimundo à época de seu casamento com Sthéfany. O dado está presente num edital de proclamas publicado em outubro de 2014 por um jornal da cidade de Unaí. Pelo menos desde 2014 o casal já residia na cidade e estava vinculado a uma igreja na qual, segundo informações obtidas e confirmadas por fiéis e ex-fiéis, o embaixador tinha reputação impecável. Nas mídias sociais, para convidar pessoas a investir milhares em sua empresa, Antônio Sousa se intitulava o “Embaixador do Reino” e dizia ter como missão “libertar pessoas da escravidão financeira” por meio de supostos códigos para a riqueza, encontrados na Bíblia Sagrada.

Em vídeos no Instagram, Antônio Sousa “liberava códigos” de “prosperidade financeira” aos seus seguidores sempre os convidando a fazer parte da Embaixador Investimentos (Foto: Print Screen/Instagram)

Tudo não passava de falácia, charlatanismo e estelionato. Apesar de haver rendimentos aos primeiros investidores, o negócio tocado por Antônio Sousa não tinha firmeza legal, não era um banco, não tinha autorização da Comissão de Valores Mobiliários ou do Banco Central para atuar e dependia, para manter seu negócio ativo, da ausência de transparência nos investimentos, nos contratos e nos supostos lucros de mais de 8% ao mês para pessoas físicas e 10% para pessoas jurídicas. Um vídeo de 2021 publicado por um usuário no Youtube demonstrando o uso da plataforma de investimentos informava que haveria possibilidade de lucro de 50%, expressamente escrito.

Lucro exorbitante oferecido na plataforma de investimentos (Foto: Print Screen/Youtube/Reprodução)

O Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MPMG), porém, encontrou indícios de fraude no negócio de Antônio Sousa e deflagrou operação conjunta com a Polícia Civil de Minas Gerais e colaboração de órgãos do Pará e do Distrito Federal na manhã desta quinta-feira para prender preventivamente os possíveis operadores do esquema e realizar busca e apreensão, inclusive de veículos obtidos através da prática suspeita.

A reportagem não conseguiu contato com nenhuma representação ligada ao grupo de Raimundo. No fim da noite de 05 de maio, foi publicada a nota oficial abaixo reproduzida por meio do Instagram da Embaixador Investimentos, em nome da empresa e do CEO.

Nota oficial divulgada no Instagram da Embaixador Investimentos (Foto: Instagram/Reprodução)

Banco digital? Não é bem assim

Aberto em 04 de janeiro de 2021, a atual empresa Embaixador Bank (nome fantasia para Embaixador Intermediação e Investimentos LTDA) tinha outro nome de fantasia: “Raimundo Emabixadortrader”. Registros em bases de dados públicos mostram que a última atualização dos dados da empresa aconteceu em 09 de janeiro de 2021 (possivelmente a renomeação da empresa). Segundo os dados da Receita Federal, Raimundo Antonio Santos de Sousa é o único sócio da empresa que integralizou um capital social de R$ 200 mil.

Na lista de atividades econômicas da empresa, banco, instituição financeira ou instituição de pagamento não existem. Do contrário: intermediação e agenciamento de serviços e negócios, factoring, consultorias, treinamentos e atividades auxiliares dos serviços financeiros. No rodapé do site da empresa, um esclarecimento: “Embaixador Bank tem suas funcionalidades de serviços estruturados como BaaS (Banking as a Service) com respaldo do banco liquidante e de custódia, de acordo com as normas vigentes do BACEN”.

A estratégia do Embaixador Bank era simples: oferecer ao cliente que se cadastrava num aplicativo com baixíssimos níveis de segurança a ilusão de que possuía uma conta bancária. E funcionava por determinado tempo: o cliente recebia um cartão pré-pago no qual tinha a ele atribuído um valor e ele era operado na modalidade crédito por uma empresa terceira que fazia a solução de pagamentos funcionar. Não à toa, o lançamento do suposto banco foi feito em pomposa live com sorteio de um veículo.

Com a estratégia funcionando, Antônio Sousa resolveu ampliar o negócio: agora tinha também espaço para realizar investimentos, tanto pessoas físicas (por meio da Embaixador Investimentos) tanto pessoas jurídicas (por meio da Embaixador Empresas). Nomes similares, identidade visual similares, mas apenas uma pessoa no centro: Antônio Sousa, que se intitulava como CEO das empresas. Por meio de um publieditorial – publicação paga e enviada por uma assessoria de imprensa – Antônio Sousa ganhou visibilidade no Observatório dos Famosos, um dos sites de maior acesso dentro da plataforma do UOL, um dos mais acessados portais de notícias do país.

Publicação paga colocou o Embaixador Investimentos em evidência nacional (Foto: Print Screen/Observatório dos Famosos UOL)

Para lançar a Embaixador Investimentos, Antônio Sousa fez outra live e fez novo sorteio. Embora pela legislação atual fosse obrigatório o registro do sorteio na entidade responsável pela autorização de sorteios no Brasil, em nenhum momento houve esta informação o que infere ter sido o sorteio fora dos padrões legais. Mas a suposta bondade de Antônio Sousa e sua empresa não parava por aí: em 19 de abril de 2022, aniversário de um conhecido pastor evangélico da cidade de Unaí, Antônio Sousa o presenteou com uma Mercedes Benz C180FF fabricada em 2019 e emplacada em Brasília-DF, avaliada em mais de 180 mil reais.

A relação de Antônio Sousa e Wellington Zocratto

Wellington Zocratto, pastor que recebeu o veículo, publicou um vídeo em suas mídias sociais afirmando que tinha recebido o presente no fim do dia. “Eu fui chamado na casa do pastor Antônio, Embaixador, meu amigo, pessoa que vi Deus mudando toda a história dele”, conta no vídeo. No final do vídeo, Zocratto desafia os espectadores dando leves tapas no capô do veículo: “então quero dizer pra você que mete o pau nos outros, que não acredita nas coisas, que se contenta com sua pequenez, Deus me abençoou com esta Mercedes”. Ao final, o pastor agradece ao dono da Embaixador Investimentos.

Conhecido por abraçar a Teologia da Prosperidade em sua congregação, a Igreja do Evangelho Quadrangular em Unaí, Zocratto também se destaca nas mídias sociais por ter posicionamentos políticos em suas mídias sociais. O pastor já participou de uma viagem com Antônio Sousa em janeiro de 2022 e num dos vídeos postados da viagem no Instagram, os pastores endossam a interpretação sobre um suposto “código” desbloqueado a partir de uma visão religiosa dos pastores.

O pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular não se pronunciou em suas mídias sociais sobre a operação deflagrada em face de seu amigo pessoal e doador. Zocratto, que foi citado na investigação como sendo pessoa próxima a um dos assessores de investimento da Embaixador teve prisão preventiva decretada, teve o veículo que pertencia a Embaixador Investimentos apreendido na operação.

O modus operandi do Embaixador

Apurada pela reportagem, o negócio do Embaixador é completamente fraudulento, tanto na concepção ética quanto na concepção legal. O negócio mescla uso de posição religiosa e influência de terceiros em cargos eclesiásticos para angariar investidores, a ausência de transparência do tipo de investimento e risco aos quais estão sendo submetidos os investidores e, por fim, a estruturação de uma rede de colaboradores em torno do negócio que não possuem autorização legal para atuar com investimentos.

Num esquema piramidal, se não tiver novos investidores entrando no negócio o tempo inteiro, não tem condições dele se sustentar, porém isto é totalmente inviável no longo prazo. Em um dado momento, a ausência de novos investidores causa a redução drástica nos lucros e na sua distribuição. O enriquecimento dos que se situam no topo da pirâmide costuma ser muito rápido e por isso, muitas pessoas confiam no negócio logo de cara.

Vídeo confirmando que era possível a retirada do dinheiro foi publicado em 2021, dois meses depois do lançamento do Embaixador Bank (Foto: Youtube/Reprodução)

A confiança, no negócio de Sousa, era primordial. Com a sua reputação positiva perante o grupo religioso que atuava, a promessa e entrega de lucros altos aos primeiros investidores e o enriquecimento avantajado, rápido e escalado dos primeiros investidores, Antônio Sousa ganhou a confiança de dezenas de pessoas.

Para se aproximar ainda mais do segmento religioso e aproximar várias denominações evangélicas, promoveu cultos de adoração em nome da empresa. Teve acesso a vários líderes religiosos, empresários e políticos do município de Unaí-MG, conhecido por ser o município que tem o setor agrícola e agropecuário mais rico de Minas Gerais conforme apuração feita com base nos dados do IBGE e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Foi com essa confiança que o pastor conseguiu o que necessitava para operar sua empresa de investimentos: dinheiro.

Antônio Sousa usava do apelo emocional e da religião para angariar investimentos financeiros para sua empresa (Foto: Youtube/Reprodução)

“Meu tio vendeu um lote de cerca de 40 mil reais e investiu. O pastor da igreja dele insistiu com ele pra investir”, conta João Silva* sobre seu tio que teria investido uma alta quantia na empresa no mês de janeiro de 2022. “Meu cunhado colocou dinheiro lá e tirou o primeiro investimento, vou colocar lá só uns 500 reais pra ver se rende”, contou à reportagem Marcelo Nascimento* um pouco desconfiado com a promessa de 8,33% de lucro ao mês. “Coloquei 500 reais lá que eu sei que se eu perder não vai fazer falta”, conta Jussara Campos* após ter visto sua tia e um colega de trabalho investirem quantias maiores de dez mil reais na empresa.

Questionado se na abertura da suposta conta bancária do Embaixador Bank, foi solicitado algum documento ou foto em formato selfie, Érico Matos* conta que não enviou absolutamente nada e já começou a investir. “Nada, nada. Nem endereço precisou… Porque fiz pelo link do meu cunhado”, explicou Matos mostrando um print da tela do aplicativo da suposta empresa de investimentos. No grupo de WhatsApp dos clientes e supostos representantes da empresa Embaixador Bank, relatos de pessoas que estavam sendo criticadas “por investir na Embaixador”.

Mensagens no grupo de WhatsApp do Embaixador Investimentos (Foto: Print Screen/WhatsApp)

A Embaixador Investimentos captava o dinheiro de investidores comuns e realiza investimentos sem oferecer segurança jurídica para os investidores. Muitas vezes sequer havia qualquer contrato financeiro de que quantias volumosas estavam sendo transferidas às contas do Embaixador Investimentos. A CVM, órgão regulador, atua justamente para permitir que os operadores do mercado financeiro entreguem um rendimento ou pelo menos a segurança das informações de forma que o investidor não seja lesado. A empresa não tinha autorização da CVM para operar.

Para dar a ideia de um banco e fugir da necessidade de se submeter ao Banco Central, a Embaixador Bank usava uma empresa para realizar a solução de pagamento. Sediada em Gravataí-RS, a Riclos Soluções em Pagamentos LTDA tem capital social de um milhão de reais e também se vendia como um banco digital. A empresa tem entre seus sócios Leonardo Colpo Pacheco, ex-sócio de uma empresa que atuava com criptoativos – que só tiveram regulamentação aprovada pelo Senado Federal em 26 de abril deste ano.

Apesar de demonstrar muitas vezes em mídias sociais supostos resultados dos investimentos realizados, Antônio Sousa e sua empresa não têm uma política de transparência quanto aos investimentos. Isto é, sua empresa opera sem dar ciência ao dono do dinheiro em qual ativo ele está investindo quebrando assim a primeira regra dos investimentos seguros defendidas tanto pela CVM como pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima): transparência.

Esbanjar uma vida de luxo passou a ser uma constante na vida do ministro religioso que, apesar da denominação de pastor, usava todo o seu tempo para angariar clientes para sua empresa de investimentos. A incongruência da conduta de Antônio Sousa com os ensinamentos bíblicos não impediu que muitas pessoas investissem altas quantias no negócio.

Investigação

A operação deflagrada pelo MPMG deverá chegar a uma apuração final em breve. Na tarde desta quinta-feira (05), a Polícia Civil promoveu uma coletiva de imprensa que pode ser conferida na íntegra aqui. A princípio, todos os supostos criminosos presos serão investigados com base nos fatos, dados e provas encontrados. Isso não eliminará novas buscas e apreensões, assim como também novas investigações no inquérito. Os sites da empresa usados para captar novos clientes foram redirecionados para o domínio da Polícia Civil evitando assim novas aplicações financeiras na empresa. Eventuais clientes que tenham sido lesados deverão procurar a Polícia Civil e registrar boletim de ocorrência reunindo o máximo possível de informações a respeito da possível fraude a qual foi vítima para tentar reaver as perdas.

(*) Todos os asteriscos informam nomes fictícios de fontes que, sendo vítimas ou estarem próximas a vítimas do esquema, preferiram ter seus nomes preservados pela reportagem.

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